Arte Pará 2009
Esse post já deveria estar aqui há uma semana, mas acabei postergando-o um pouco, para poder falar da maneira mais imparcial possível. Esta, que é a 28° Edição do maior Salão de Arte Contemporânea do Norte do País, cujo tema foi Identidades, teve curadoria dos Drs. em Arte Orlando Maneschy e Marisa Mokarzel. Os trabalhos do Salão foram distribuídos por 06 espaços de exposição belenenses: Museu Histórico do Estado do Pará (MHEP), Museu de Arte de Belém (MAB), Museu de Arte Sacra (MAS), Casa das 11 Janelas, Museu Paraense Emilio Goeldi e Museu da UFPA.
Os grandes vencedores deste ano foram:
1° Grande Prêmio: Berna Reale, com a obra “Quando todos Calam” (uma performance registrada por fotos, na qual a artista se deitou em uma maca em pleno Mercado do Ver-o-Peso, despida, com todo um aparelho digestivo real disposto em cima de sua barriga de maneira precisa);
2° Grande Prêmio: Armando Queiroz, com a obra “Tempo Cabano”, na qual foram dispostas duas imagens nos topos opostos das escadarias bifurcadas do Museu de Arte de Belém (sendo uma pintura do artista do começo do século XX, Norfini, do acervo do próprio MAB, e a outra, em contraposição, uma fotografia do artista contemporâneo Luiz Braga). A obra de Braga fazia uma analogia à primeira pintura, só por curiosidade. Ao centro das escadarias, onde estas se encontravam, já na realocação do Armando Queiroz, havia uma caixa de vidro com um amendoim e uma moeda, os quais aludiam, contextualizadamente, às duas imagens;
3° Grande Prêmio: Luciana Magno, com a obra “VIT(R)AL” (uma performance, na qual a artista ficou durante 01 semana morando numa loja da cidade velha de Belém, sendo acompanhada por câmeras on line 24h).
O que eu penso disso? Bem… Com a artista Berna Reale, eu vejo um trabalho merecedor do primeiro lugar do salão, trazendo elementos identitários para uma performance cheia de referências lírico-políticas: homens-humanos (representados pela própria artista fotografada), sempre nus, em sentido amplo, fragilizados ante a natureza implacável das coisas, observando uma barbárie social que é alheia a tudo e a todos; barbárie que os deixa impotentes em relação aos seus conscientes, sobrando-lhes, então, tentativas antropofágicas de clamar por alguma resposta às suas eternas perguntas (mesmo dentro de suas perspectivas resignadas ante o inexplicável, a proximidade da morte, o niilismo).
Para o trabalho do artista Armando Queiroz, só posso dizer que este foi tremendamente desapontador (talvez num enfoque diretamente proporcional à megalomania da idéia). Apropriar-se de obras alheias não é uma novidade, e, desta vez, na minha opinião, este ato se deu beirando o simplório (em toda sua carga negativa de entendimento). Como já disse o poeta Rodrigo Barata, num de seus novos livros: um desnecessário! Deflagrar diferentes épocas numa mesma obra, com um possível viés semelhante, mostrando que as coisas não mudam tanto quanto imaginamos? Risível na execução.
Uma pena a escolha deste segundo lugar, pois muitas obras se mostraram deveras mais interessantes e conscientes de seu papel na pós-modernidade, sem tratar o expectador levianamente. Aqui vão algumas delas: “Dead Pixel”, instalação de Flávio Cardoso de Araújo (excelente e multifacetado trabalho, o qual mostra a imagem em todo seu esvaziamento social); as telas de Paulo Wagner Oliveira: “Mulher Sentada”, “Mulher em Pé”, e “Mulher de Costas” (num recorte de referências, as quais vão desde o expressionismo, o fauvismo e o modernismo, até os traçados de quadrinhistas do cenário independente); A obra “Nau Frágil”, de Paula Sampaio, e ganhadora do prêmio de Aquisição (um recorte delicado da intimidade da fotógrada, do ser humano à deriva); “O Marco Amador”, do artista pernambucano Paulo Meira (uma obra monumental composta de 2 vídeos e diversas fotografias, num grande exercício metalinguístico e lynchiano acerca do fazer arte); as instalações do curitibano Geraldo Zamproni, intituladas “Sustentabilidade III”, “V” e “VII” (trazendo a discussão do diálogo relativizado; do jeitinho que se dá para transitar pelos vários setores sociais e/ou institucionais); o duplo fotográfico do artista baiano Ayson Heráclito, intitulados “Bori” e “Xangô” (uma releitura candomblé-antropofágica das telas do mestre renascentista Giuseppe Arcimboldo); e a bem humorada obra do artista pernambucano Bruno Vieira de Brito, “O Sertão vai virar Mar” (a idéia de um barco de papel no sertão já vale por mil palavras).
Dos artistas convidados, alguns trouxeram elementos representativos para o desdobramento da temática do Salão e do cenário contemporâneo: o artista Acácio Sobral trouxe duas obras lirico-reflexivas, sendo uma delas uma video-instalação, intitulada “Correspondências”, ganhadora do primeiro lugar em outra edição do Salão e já muito conhecida, e outra, instalação, chamada “Desconstrução” (disposta, sozinha, numa das salas da Casa das 11 Janelas). Cada qual lida de maneira delicada e sofisticada com temas relacionados à memória, ao realismo fantástico, à nostalgia, à sensação de êfemero. “Desconstrução”, em especial, parte da idéia de reaproveitar materiais de uma obra anterior do artista e reformulá-los, mostrando as possibilidades de resignificação e criatividade. Nesta instalação, por sinal, há um impacto psicológico gigantesco, quando nos olhamos e nos sentimos imersos pela idéia de pertença gerada na sala da obra. Abaixo, uma fotografia de parte da obra, ainda em seu estúdio.
A artista Cláudia Leão também participou como artista convidada, com uma obra de video arte, mais precisamente, fazendo um panorama de várias de suas fotografias: “Protocolo de Infinitas Imagens Cotidianas II”. A artista criou uma sensação de hipnose fantástica em frente à sucessão de quadros da obra e à estética íntima das imagens. Walda Marques, da mesma forma, foi outra convidada que teve sua obra (forografia-instalação) disposta na capela do MHEP, e lidou, sob outra lente, com o imaginário íntimo, mágico e nostálgico.
Pontos Baixos:
Geralmente, em todo e qualquer evento há defeitos, assim como em toda e qualquer crítica: uns mais relevantes, e outros, porém, nem tanto. O exercício de levantar questionamentos (sejam os defeitos, e, também, os acertos, por conta da tal da crítica) é embasado, vale afirmar, na crença de que somente através de reflexões, sob o ponto de vista do ser humano racional, que teremos desenvolvimento. Vamos observar alguns:
1 – Após procurar na internet sobre o Arte Pará 2009, constatei que a única maneira de se informar acerca deste evento era pagando uma taxa para o portal ORM (cadê a imprensa geral, as opiniões, os meios de divulgação independentes?). E olha que estamos no momento de acontecimento do Salão e também da globalização, da ausência de fronteiras, da informação democrática. Até agora não consigo enteder o porquê deste fato, deste cartel informacional;
2 – Não há crítica alguma acerca da arte produzida no evento. Todos se retraem com medo, ou isso é uma forma de exercer a política do melindre e do correto (uma ditadura às avessas, já que a informação é controlada)? Se bem que, também, posso dizer que os jornais locais não querem textos de crítica de arte especializados (é só abrir a página dos jornais e ver que não existe nada nesse sentido), uma vez que há sempre alguém sem formação específica para cumprir este serviço (e a crítica destes últimos dá lugar ao formato receita de bolo, pedaço de texto demonstrativo e vazio);
3 – A propaganda veiculada na televisão é extremamente elegante, porém inexpressiva. Quem, em face daquela chamada na TV, vai querer ir para o Museu, quando este é um hábito praticamente inexistente na população? Cadê as alternativas de transformá-lo em algo mais atrativo?
4 – Eu acho que a divisão do evento em vários lugares (06, para ser mais exato) comprometeu o acesso a determinadas obras. Ok, MAB, MHEP, MAS e as 11 Janelas são lugares próximos (um grande circuito cultural), mas o Museu de Arte da UFPA, assim como o Museu Emílio Goeldi ficaram mais periféricos em relação ao concentramento do evento (ainda mais sabendo que eles possuem um número inexpressivo de obras). Eu creio que isso irá relegar certos trabalhos para menos gente ainda (ainda mais quando não há, senão pela boa vontade de uns poucos, a tentativa de levar mais visitantes para freqüentar o museu);
4 – 02 artistas na mostra me causaram uma sensação de falta de criatividade e preguiça crônicas, e eu não poderia deixar de passar despercebido: a entediante e lugar-comum série fotográfica do artista Rafael Adoyán Tindó, e o horrendo trabalho óbvio (com o argumento oportunista de inclusão social) do artista Jair Rabindranath.
5 – Mais uma vez, a escolha do equivocadíssimo segundo lugar, com a obra, já citada, do artista Armando Queiroz.
Tirando Conclusões
Para não me prolongar mais (pois eu já sei que escrevi para além da conta), termino este texto com um olhar de satisfação acerca do evento, com suas escolhas e obras pertinentes, bem selecionadas. Claro, falta um pouco de inclusão artística (tentativas de fazer com que a leitura seja mais fácil por parte do público leigo, num esquema didático mesmo), mas esses detalhes ficam guardados para o próximo Salão. Frente à variada experiência possibilitada pelos artistas, os quais colocam suas identidades em trânsito, percebemos nosso papel híbrido nessa cultura global, e isso é o que importa.
ps.: um próximo post virá falando de outros artistas do Salão, bem como da ganhadora do 3° Grande Prêmio. Se possível, até lá, conseguirei tirar fotos, já que não adiantou eu apresentar meu comprovante de estudante de arte da universidade para poder tirar das obras no Salão (burocracia pós-moderna mesmo).
Inglorious Basterds
Acabei de voltar de uma sessão de Inglorious Basterds, o novo filme do diretor Quentin Tarantino, e posso afirmar que vim cheio de pensamentos e perspectivas acerca do cinema nerd-hypado do americano. Bem, mas vamos com calma.
Inglorious Basterds, de longe, é o filme mais irregular e falho da carreira do diretor, mas nem por isso se torna algo ruim, uma experiência descartável. Muito pelo contrário, pois é divertido e cheio de momentos brilhantes. O maior pecado está na tentativa do Tarantino de ser tão megalomaníaco, querendo fazer uso de diversos recursos narrativos (uma colcha de retalhos referenciais), os quais incorrem numa obra que não se decide por qual caminho vai tomar (mas isso é um olhar intelectual e xiita da minha parte mesmo).
Eu tive a sensação de ver escolhas divergentes em vários pontos da película, as quais comprometiam a unidade do todo. Aqui vão algumas:
1 – O início e a maior parte do desenvolvimento são muito mais sutis, com as brincadeiras cinematográficas mais regradas (os maneirismos dos atores, por sinal, é fantástico, principalmente da interpretação genial do Christoph Waltz, além de umas seqüências impecáveis, como a que ocorre numa espécie de pub) e de roteiro menos óbvias. Mas à medida que o climax vai chegando, o equilíbrio super interessante cede espaço para um andamento exagerado e apressado;
2 – O hiperrealismo na violência num filme estilizado não me soou direito. É uma opinião extremamente pessoal, mas eu sinto que as duas linguagens não se encaixaram;
3 – A edição me incomodou em certos momentos. Alguns planos eram extensos demais; outros poderiam muito bem ser eclipsados da narrativa sem prejuízo;
4 – O tom de farsa do final se entrega ao clichê e ao esperado (em contraposição ao restante da narrativa, a qual se mostra ágil e incerta). Infelizmente, a morte de um certo figurão foi uma sacada bem dada no filme errado, da maneira errada;
Acho que por alto é isso. Talvez, numa segunda chance, o filme mude de perspectiva para mim, mas ele, por enquanto, não conseguiu me fazer esquecer destes pequenos lapsos citados. Gosto de acreditar que nem todo grande diretor acerta em todas as suas tentativas.
Quadrinhos Underground: Exit Wounds e Persépolis
Uma das coisas mais legais que venho descobrindo atualmente são os chamados quadrinhos underground, principalmente os originários de Israel e Iran. Vou aproveitar para falar um pouquinho de dois deles que conquistaram esse que vos fala: Exit Wounds (importado), da escritora Rutu Modan, e Persépolis, da já conhecida iraniana Marjane Satrapi.
Cada qual, à sua maneira, tenta, sob um viés delicado, tratar dos conflitos político-religiosos da região (adoro esse estágio pós-moderno, o qual possibilita o acesso a obras tão distintas e bem feitas, fora do circuito EUA-Europa). A arte, por sinal, é o primeiro ponto a ser observado, pois não tenho como dizer que não são lindas. Exit Wounds é a mais impressionante, pela sensação de movimentação do traço (e a minha edição de luxo em capa dura valoriza ainda mais o conjunto).
Em Exit Wounds, um menino tenta ajudar a ex-namorada de seu pai desaparecido a encontrá-lo (crê-se que o pai do garoto tenha se envolvido num ataque à bomba num bairro de Tel Aviv). Com esta premissa, ambos passam a vasculhar o seus passados e de um país em eterno conflito com os povos vizinhos, fazendo o uso de um lirismo narrativo e de uma nostalgia sufocantes.
Persépolis, o qual já foi adaptado para o cinema (e indicado para o Oscar de Melhor Animação), fala de uma garota de pais e educação liberais crescendo no período de fortalecimento do fundamentalismo do Iran. O filme, vale ressaltar, possui pontos diferentes em relação ao quadrinho (acho que são duas obras que se completam), pois cada um dos dois tem pontos impressionantes e micro-narrativas líricas e cheias de bom humor para se tratar de períodos tão turbulentos. O carisma e o tom de realidade e profundidade psicológica da protagonista (que é autobiográfica) fazem desse livro uma experiência inesquecível.
Lembro ainda de um filme (o qual virou quadrinho, posteriormente) não comentado por mim através do blog: Valsa com Bashir, que traz muito dessa abordagem política-pop-lírica. Neste filme israelense, o foco é em um personagem que desenvolve uma amnésia sobre um determinado período de sua vida (a guerra envolvendo o Líbano e Israel). Mais uma vez um personagem vai atrás de suas raízes e de suas dores mal curadas no caminho.
É super interessante (indicação minha) assistir Balsa com Bashir e compará-lo em perspectiva com as outras duas obras citadas aqui, vendo que cada uma tenta, através da arte, exorcizar fantasmas de uma região conflituosa e consciente de seu papel artístico e identitário, mostrando que o crescimento desse nicho fantástico é definitivo.
Atualmente espero cada vez mais títulos representativos vindos desse caldeirão de produção. Basta que o espaço no mercado editorial brasileiro aposte nesta idéia (como a Companhia das Letras, por exemplo, está apostando).
Anticristo
Quando se trata de um filme do Lars Von Trier, eu sempre espero por uma boa sensação de incômodo, e com o Anticristo não deixou de ser assim. Muito longe disso, aliás, pois além do incômodo, houve a sensação de se sentir totalmente aterrorizado, visual e psicologicamente.
O novo filme do diretor sueco finalmente chegou nos cinemas de Belém e causou um escândalo para os não avisados. Por sinal, quando eu fui ver, reparei vários casais na fila, alheios ao que estava por vir, achando que era mais um exemplar idiota desses filmes de terror da nova safra. Ledo engano. Pessoas se levantaram, gritos reais de terror na sessão e muito mal estar coletivo (do jeito que só a mente doentia e quase misógina do Trier pode oferecer para você).
O mais interessante é toda a construção hipnótica da obra, que, diferentemente de todos as anteriores do diretor, fez um uso absurdo e paralisante de fotografias, películas, slow motion, trilha sonora (excelência técnica), além das atuações da Charlotte Gainsbourg (ganhadora do prêmio de melhor atriz em Cannes deste ano) e do Willen Dafoe. No final, por curiosidade, durante os créditos, há uma dedicatória ao diretor russo Andrei Tarkovski, mostrando diretamente que a influência estética do filme bebeu nas obras dele. Certas cenas me trouxeram O Espelho e O Sacrifício (duas obras-primas do mestre russo), e também A Hora do Lobo (único terror do diretor Ingmar Bergman).
Mas não se engane, pois o terror da estória é algo totalmente fora dos padrões (como disse o site Omelete: um soft porn de arte, no bom sentido), e as cenas de violência me deixaram até agora atônito (eu, sinceramente, não tinha reações após o término de Anticristo). E olha que eu estava me preparando psicologicamente há um tempinho já. A famosa cena dos clitóris sendo cortado em close up é uma dentre as várias do espetáculo atroz de mutilações físicas.
O ritmo e a crueldade desfraldada com os personagens também é outro ponto. Eles, junto da delicadeza sádica das sequências (beirando um visual Munch), são de um impacto tremendo. O lado vilão e herói se confrontam (este é um dos motes do roteiro), virando ingredientes dessa massa indigesta e imperdível. Observamos, pelo filme, o quanto possuímos um pouco de Cristo e de Anticristo em cada um de nós.
Só me restou uma piada nervosa quando saí da sala do cinema: com a Gainsbourg tem de se ter muito cuidado, por que ela não é mulher de brincadeiras.
Distrito 9
Não podia deixar de comentar Distrito 9, uma das ficções científicas mais legais que vi nesse ano, a qual chegou nos cinemas recentemente. Eu já estava esperando este filme há um bocado de tempo, desde as primeiras campanhas virais e o excelente trailer. Programa nerd imperdível.
A obra é do estreante Neill Blomkamp, e a Produção Executiva ficou a cargo do querido Peter Jackson. O diretor mostrou uma mão ótima com cenas de ação hiperealistas, câmeras rápidas e digitais, uso de fotografia inteligente e saturada, e atuações covincentes. O mais interessante: o orçamento do filme foi baixíssimo e a qualidade elevada comprova que cinema é feito, antes de mais nada, de boas idéias. Destaque para a hipnótica trilha sonora.
A premissa é bastante ousada: alienígenas ficam presos na Terra (em Joanesburgo, na África do Sul), por conta de defeitos na sua nave mãe, e acabam criando uma comunidade miserável que sofre preconceitos por conta da população humana e vivenciam uma miséria social extremada (o tal do Distrito 9 é uma enorme favela onde os alienígenas ficam circunscritos). Os conflitos do filme são extremamente viscerais, mostrando uma ficção científica sob um ponto de vista sociológico-político.
O ator principal (o novato Sharlto Copley) vira peça fundamental na narrativa, pois se torna o centro de interesses corporativistas ao se contaminar com um produto químico alienígena e desenvolver uma espécie de mutação híbrida com a raça. Este é o foco para tratar de nosso próprio lado vilão na História, mostrando o quanto somos oportunistas e amorais, ao criar um conflito de proporções étnico-nazistas (pura barbárie), para satisfazer o interesse de uma Estrutura de Poder dominante. Ao final do filme, com um gancho para a já conhecida continuação, torcemos pela nossa destruição (cada vez mais penso no quanto o politicamente correto é um véu feito para distrair nossa inalienável natureza nazista).
Ao término do filme, muito satisfeito, pensei a respeito do meu odiado James Cameron, o qual anda torrando mais de 300 milhões de dólares com seu projeto Avatar. A estréia é já para o final do ano, e, logo pelo trailer, não consigo cogitar a possibilidade dele ser melhor do que Distrito 9 (creio que o filme do Neill Blomkamp custou menos de 1/10 do orçamento do filme do Cameron). Continuo achando que o diretor de Titanic e Terminator 1 e 2 é o que há de mais pernicioso em Hollywood.
Halloween 2009
Neste final de semana próximo será a festa de Halloween da Escola. Todos estão convidados para comparecer. Café com Arte, dia 24 de Outubro. Ingressos a 10 reais. Concurso de Abóboras, Fantasias, apresentação de bandas de alunos da Escola, Trick or Treat e muito mais…
Luís Buñuel
Já estava pensando em fazer um post sobre o Buñuel há algum tempo, mas faltava-me a inspiração necessária. O diretor, o qual se configura na minha lista de gênios do cinema quase irretocáveis, mostrava que seria necessário uma abordagem que fizesse jus a toda sua produção poética-política na 7° arte (produção geradora de enormes polêmicas durante todo o processo de sua filmografia).
O diretor espanhol, deve-se saber para início de conversa, foi amigo do grande artista Salvador Dali (com o qual realizou duas obras fundamentais para o cinema: Um Cão Andaluz e A Idade do Ouro). Esta parceria trouxe, conseqüentemente, um cinema de sondagem psicológica-surrealista (ele é o mais representativo nesta seara, claro), com um alto teor marxista. Por sinal, o materialismo histórico de Marx é, na minha opinião, o ponto central de toda a carreira do diretor.
Os filmes de Buñuel sempre se ativeram a uma enorme crítica burguesa, deflagrando as contradições sócio-econômicas atuais com lirismo e, freqüentemente, um humor ácido (a tensão entre classes foi tema de seus grandes clássicos como O Anjo Exterminador, A Bela da Tarde, O Discreto Charme da Burguesia, O Fantasma da Liberdade e Esse Obscuro Objeto do Desejo). Ateu famoso, Buñuel falou a famosa frase “Ateu, graças a Deus”. Seus filmes não deixam de ser um ataque agressivo a instituições religiosas também (isso se observa de maneira mais pungente no ganhador da Palma de Ouro em Cannes Viridiana, além das obras Nazarin e Simão do Deserto).
Três momentos foram marcantes em sua filmografia: seu início de carreira na Espanha, sua maturidade no México (por conta de perseguições políticas e pela facilidade de financiamento de seus filmes) e sua consagração cinematográfica ao fazer filmes na França (onde conseguiu maior subsídio e realizou suas obras mais radicais).
Eu acho que entender Buñuel hoje é um exercício político; exercício este o qual mostra uma arte engajada em níveis dificilmente alcançados nas produções atualmente. É um exemplo de forma com conteúdo, sem o esvaziamento narrativo da chamada pós-modernidade. Fundamental para a História do Cinema e, também, para o campo de experimentação técnica e poética, além da realização conceitual não óbvia.
Top 15 Luís Buñuel
01 – Um Cão Andaluz
02 – Viridiana
03 – O Discreto Charme da Burguesia
04 – O Anjo Exterminador
05 – Esse Obscuro Objeto do Desejo
06 – A Bela da Tarde
07 – O Fantasma da Liberdade
08 – Os Esquecidos
09 – O Diário de uma Camareira
10 – O Alucinado
11 – A Idade do Ouro
12 – A Adolescente
13 – Tristana
14 – Nazarin
15 – A Ilusão Viaja de Trem
Montanhas Imaginárias
A cada ano nossas perspectivas sobre determinados fatos mudam, pois passamos a estruturá-los de maneira mais coerente (crê-se) e sistematizada, já que a distância do instante tido em perspectiva permite uma análise menos inflada, menos tomada pelos arroubos afetivos de então. A cada ano também envelhecemos, degradamo-nos, buscamos nos agarrar em uma ingênua sensação de eternidade e alienação. Como dizer, portanto, que, a cada ano, a maneira com a qual olhamos para nós mesmos não se modifica? Esse é o propósito deste relato que se segue.
09 de Outubro de 2009. 9 horas da noite. Vésperas de um dos maiores eventos católicos do país e, também, do dia no qual faço anos. Eu, cada vez mais ateu e impaciente, observo uma pessoal contradição nesta data. A cidade está fervorosa, irritantemente engarrafada e cheia de pessoas mecânicas, no maior acontecimento de exportação étnica local. Não páro de lembrar das perspectivas mais pessimistas de desdobramentos da identidade na pós-modernidade.
Nietzsche talvez seja o melhor começo. Um começo para definir estas derradeiras horas de um mais um ano que se esvai. Sua idéia de destruição para construção se adequa à minha relativização dos fatos (relativização que virou lugar comum nos meus pensamentos). O ato da destruição nunca se mostrou tão mais propositado para este que vos fala, sobretudo por conta do crescente, consciente e, talvez, irrefreável fatalismo que me persegue. Esta foi e é, por mais irônico que pareça, a minha melhor saída.
Além de tomar consciência maior do fim das metanarrativas, basicamente, posso dizer que aprendi a confiar menos, a me doar menos e a não achar que haverá uma salvação. Resignei-me a um niilismo confortável e descompromissado, instaurado no conforto intelectualóide que eu posso me proporcionar. E constatei, como poucos, uma tremenda sorte, pois dentro do meu pessimismo de proporções globais, vi que apóio-me em referenciais satisfatórios: gentes pessoais, as quais, assim como eu, não esperam nada além do que o alcance das mãos.
Enveredei-me pelos discursos de cultura de massa, de materialismo histórico e de estruturas de poder (sim, o foco de 80%, aproximadamente, das minhas energias, por conta de pesquisas e tais) . E creio que afastei-me, paralelamente, de possibilidades (mas não que eu faça questão delas). Descobri na solidão a autonomia e a liberdade (da mesma forma que descobri a vontade abortada de partilhar pensamentos esquizóides). Comecei a questionar o limite entre sanidade e loucura (onde começa um e onde termina outro não somente para mim, como para os outros igualmente). Senti falta serenamente.
Meus prazeres eu pude tirar de pouco, de mim mesmo (daí que ser marxista não é uma possibilidade), com o aumento de coleções, descoleções e fragmentos. E meu teor politicamente incorreto, alicerçado em padrões ideológicos Foucaultianos, se expandiu. Não deixo de pensar em como devo estar pra lá de mais chato para vários (mas o senso comum é assim mesmo, um bric-a-brac leviano de constatações rasas; um barbarismo plebeu; um haraquiri intelectual).
Entretanto, como eu disse, o momento é o da relativização. As coisas podem como podem não ser. Abrem e Fecham. Quero e não quero. Tal qual o personagem do Erland Josephson em Saraband, do Bergman, sinto que posso acabar sendo um ótimo espelho futurista, pois não espero absolutamente nada dos outros. Nem mesmo o correto.
Hoje, no dia que mais um ano se soma à minha existência, sinto-me como numa montanha imaginária. Um pensamento célere e fugaz. Talvez ingênuo, de certa forma. Sei que acharei, sempre, nos corredores das constatações, uma ainda mais alta, e em cada um desses picos irei perder mais fôlego. Talvez seja este o propósito (e não que isto seja um mecanismo de comparação social). Irei além, através, e buscarei, ad eternum, me perder mais e mais no universo da abstração.
Um Pequeno Ensaio: a Metalinguagem em 8 e 1/2, Memórias e A Noite Americana
A metalinguagem, a meu ver, é uma das maneiras mais elegantes de se fazer Arte, e muito desse senso foi apropriado pelo discurso da Modernidade, quando o objeto artístico era, antes de qualquer coisa, uma análise sobre o viés sensível, sobre a Arte em si, abrindo mão da racionalidade Pré-Romântica.
Porém, é válido lembrar que antes mesmo, no Barroco, o próprio Velásquez, em seu quadro As Meninas, já tinha feito um uso tão refinado desse artifício, ao criar uma sensação de estranhamento metalingüístico com a pintura: não sabemos se somos nós os observadores ou os observados (essa é uma análise não minha, mas do Historiador da Arte Ernst Gombrich). Com As Meninas temos uma antecipação da captura do momento instantâneo, que a fotografia saberá usar tão bem a partir do século XIX (a fotografia, por sinal, desembocando no cinema, é o foco deste post).
E como não pretendo me prolongar falando sobre a metalinguagem de maneira generalizada, mas delimitada, quero observar a excelência deste exercício em três obras fundamentais do cinema: 8 e ½, do Federico Fellini; Memórias, do Woody Allen; e A Noite Americana, do François Truffaut, pois cada diretor, com sua devida obra, apresenta uma carga de experimentação revisionista positiva, características dessa sopa pós-moderna na qual vivemos.

Em 8 e ½, ao tratar de um lapso de criatividade, o cineasta italiano Federico Fellini, através do seu ator-mor, Marcello Mastroianni, mostra uma obra que, ao ver do diretor, não chega a ser seu nono filme, mas é algo além (o seu “oito e meio”), com personagens puramente fellinianos, desfilando por um roteiro que explora as barreiras tênues entre realidade e ficção na vida de quem faz cinema. O personagem de Mastroianni, com a constatação da crise, resolve partir numa viagem acerca de seus antigos relacionamentos.
Considerado um marco do cinema (ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Figurino de 1964, e tido como um dos 05 filmes mais importantes da História, unanimemente, pela crítica especializada), 8 e 1/2 é o maior exemplo dessa apropriação conceitual acerca do fazer artístico em si. A proposta de um roteiro, inclusive, não-linear é um desses elementos que fazem com que os filmes do Fellini sejam tão ficcionalmente reais. A porta para o mar de possibilidades (discutir a criação) é escancarada e levada a um grau máximo (não aparecerá, na minha opinião, mais um outro cineasta capaz de sobrepujar esse exemplo).

Da mesma forma, Woody Allen, em seu Memórias (um filme indispensável e pouco conhecido, por sinal), fazendo um uso da comédia com toques fellinianos (os personagens e os close up são uma homenagem clara), traz um auto-pensar único. Dessa vez, o retrato é sobre o artista autoral versus a indústria. A grande questão é de que certas coisas podem não necessariamente ser objetos de tantas análises semióticas como a crítica especializada tanto gosta de ter (isso lembra, inclusive, um livro de memórias do cineasta David Lynch, o qual me foi dado de presente pelo meu amigo Saulo Sisnando, e que coloca um nó na cabeça de quem adora achar algo nas entrelinhas de uma obra artística: pode haver uma leitura que vá além do consciente do criador de uma obra? A inconsciência é um respaldo para se analisar algo, talvez, além do que este é para si mesmo?).
Numa cena memorável, o personagem do Woody Allen (que mais uma vez se dirige – um exercício metalinguístico por si só), discute a relação contextual do filme Ladrões de Bicicleta, do Vitorio De Sica. O contexto pode ser visto ali como uma predisposição, ou o patamar artístico, para a auto-reflexão, e, para mim, este é um exercício para poucos (a divisa entre a divagação rasa da profunda é muito próxima, e só mestres conseguiram dar conta desta tarefa).
Já com François Truffaut, em A Noite Americana (o cineasta, por sinal, também se auto-dirige, interpretando um diretor, veja, em seus dias de filmagem!!!), busca-se um pouco, da mesma maneira, esta relação entre a indústria e a criação de um filme. O foco se dirige ao papel de um diretor que lida com todos os processos de mimese de uma produção. Incluem-se aí os percalços de backstage, ego de atores (trazendo os grandes Jean-Pierre Léaud e Jacqueline Bisset) e a pressão enfrentada numa profissão tão delicada.
As brincadeira entre os cenários, a noção de simulacro e simulação (eu acho esse filme um grande estudo sobre Baudrillard), o próprio conceito do título original (Day for Night, que cria uma relativização até do tempo dentro do cinema) vão se agregando, numa obra prima de várias camadas e ganhadora do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1974.
Três gênios da sétima arte, três obras irretocáveis. O arriscado e difícil processo da metalinguagem transportado sem nenhum constrangimento. Arrisco-me a dizer até que é cada vez mais difícil encontrar obras tão sofisticadas. Uma das últimas e raras, no mundo do cinema, foi a do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, em seu filme Gosto de Cereja, o qual traz um final pra lá de metalingüístico. Este filme, por sinal, ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em 1997.
Arte Moderna no Pará
Um Breve Panorama Histórico do Modernismo
Muito já foi analisado acerca do Movimento Modernista, o qual veio no início do Século XX, embalado por uma nova dialética no fazer artístico da época. Autores variados, inclusive, como o teórico Giulio Carlo Argan, observaram essa tradição do Movimento quando este adotou um viés filosófico e crítico, privilegiando aspectos conceituais, os quais elevaram a Arte a um patamar totalmente diferenciado do seu anterior.
Bebendo na fonte de conceitos que remetiam à escola de pensamento alemã e ao período Romântico, o Movimento Modernista é peça chave para se entender um novo período de contaminações que veio se desdobrando até os nossos dias atuais. O filósofo romântico alemão Hegel, em seu livro A Fenomenologia do Espírito, foi o guia desse novo pensar (pensar que ele chamou de Espírito do Tempo), pois à medida que promoveu o fazer artístico a um desdobramento acerca da Estética, da Arte em si mesma, e não mais numa representação ou imitação da realidade, quebrou com os cânones acadêmicos (os quais representavam o antigo regime) e instaurou uma reconstrução do fazer-arte para a humanidade. Ele dizia que a arte do passado era um objeto de representação, e este objeto era a finalidade da arte: a reprodução do representado. Entretanto, esta análise deveria ser modificada, uma vez que urgia a busca de uma adequação da produção artística à nova contextualização histórica (a revolução burguesa com as modificações advindas pela Revolução Francesa e a chegada de um novo modo de se relacionar com o espaço-tempo).
Com suas idéias reacionárias, Hegel fez a arte entrar num processo de crise que levou à total destruição desse conceito de imitação artística (conceito que prevaleceu até o fim do século passado). No interior de seu discurso, vale ressaltar, apareceu, também, a figura do sublime hegeliano, o qual se lançava nessa busca pelo novo, baseado na percepção do artista com sua vivência de mundo, e não mais submisso aos padrões miméticos neoclássicos.
Por mais que sua contextualização esteja circunscrita ao período chamado Romântico (Século XVIII – primeira metade do Século XIX), os efeitos avassaladores das teorias de Hegel (em contraposição com muito dito por Kant) foram tidos como mote e perduraram durante todo o processo Modernista, caracterizando este último movimento com um caráter de contestação, experimentação e liberdade artística.
No caso do Brasil, mais especificamente, o Modernismo veio ter seu grande momento na Semana de Arte Moderna de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, trazendo uma sensação de inquietação em relação ao antigo sistema oligárquico brasileiro e aos antigos ideais estéticos do Século XIX. O poeta Oswald de Andrade, alguns anos mais tarde, elaborou até o Manifesto Antropofágico, que caracterizou bem essa relação de contaminação e busca da nossa voz interior através do intercâmbio, da hibridização, em contato com as vanguardas e os ideais filosóficos em voga na Europa, numa lógica de assimilar o estrangeiro, porém para a tradução do nacional.
Na cidade de Belém, não diferente, os ideais desse Espírito do Tempo também contaminaram as vanguardas artísticas locais, como pode ser observado através da publicação da revista “Belém Nova” (uma “aglutinação” da falange dos novos do Pará, como já disse o teórico pernambucano modernista Joaquim Inojosa), pela farta troca intelectual com o Estado de Pernambuco (o qual já tinha sido contaminado por aquela onda crescente modernista, seja pela disposição geográfica atlântica, seja pela dialética com São Paulo), pelo apelo estético do grupo de escritores intitulados “Vândalos do Apocalipse” (os quais tinham o mote Nietzschiano “destruir para criar”), pela inquietação gerada por pintores antenados com essa nova Estética, como o caso de Leônidas Monte.
Houve Possibilidade de Modernismo na Cidade de Belém?
Para cada análise modernista no Brasil devem ser levadas em consideração as devidas proporções. Não havia como se ter um Modernismo com as mesmas proporções do de São Paulo (o qual era um Estado economicamente e geopoliticamente mais favorecido, por conta da rentabilidade da exploração cafeeira e pela representatividade política) na cidade de Belém (a qual, mesmo após uma prosperidade econômica por conta do Ciclo da Borracha e sua conseqüente intensa troca cultural com a Europa, apresentava, contudo, um distanciamento geográfico da diligência e efervescência do país, que para a época dificultava essa noção intercambial).
Devem-se mencionar, além desses fatores conjunturais, os sérios preconceitos que Belém sofreu, por exemplo, por conta das visões extremamente tendenciosas do influente Modernista Menotti Del Picchia, o qual não acreditava, gratuitamente, na possibilidade de um movimento de tal natureza no Norte do país. Del Picchia, com seus discursos pró-São Paulo, só não se apercebeu do quão contraditório acabou por se tornar em relação aos ideais que pregava, uma vez que sempre foi na diferença que a História Brasileira se sustentou, e a sua condição Modernista, por conta de seu viés crítico, deveria desvelar uma consciência desses processos históricos de tensão e profundos contrastes.
A teórica Annateresa Fabris, em suas análises sobre o Futurismo Paulista, mostrou que o apregoado por Del Picchia se respaldava numa visão completamente errônea e alienada (a crença no “mito tecnizado”), colocando em xeque até seu papel no Movimento, visto o panorama das diferenças encontradas na própria capital paulistana (a teórica os levanta, e estes não se diferenciavam tanto da condição encontrada nos outros Estados do país). Annateresa Fabris conclui que o Movimento Moderno Paulistano era circunscrito a um determinado nicho intelectual, ao passo que 72% da população do Estado repousava numa condição iletrada.
Observa-se, conseqüentemente, que o que cabe aqui não é hierarquizar políticas intelectuais entre os Estados Brasileiros, nem observar se houve um mínimo aceitável de Modernidade no cenário artístico paraense. Sabe-se que as contaminações teóricas e práticas foram parte desse Espírito do Tempo e, portanto, tal condição era indelével, quiçá inalienável ao indivíduo desse Século XX. São Paulo se espelhou nas vanguardas européias, da mesma forma como Belém dialogou com a Europa, além do Estado de São Paulo e de Pernambuco, num caldeirão de influências filosóficas e estéticas.
O ponto chave, portanto, para se discutir o Movimento Modernista na Cidade de Belém é perscrutá-lo e buscar saber o grau de contaminação Modernista no que estava sendo criado na época, aceitando que este foi divisor de águas para o mundo das Artes e causou um impacto profundo em todos os alicerces teóricos em voga. E se nós estamos na chamada Pós-Modernidade, num estado global e híbrido, devemos a esse estágio anterior, o qual polemizou e escandalizou uma platéia conformada com o lugar comum da reprodução na escala ocidental.
Referências Bibliográficas
ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2008
FABRIS, Annateresa.O Futurismo Paulista: Hipóteses para o Estudo da chegada daVanguarda ao Brasil, Ed. Perspectiva, São Paulo, 1994
FARIAS, Edson. Tradição e Canivete: um Esboço do Modernismo Comparado em Tela. [Tese de Doutorado]
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do Espírito, Editora Vozes, São Paulo, 2008
INOJOSA, Joaquim. Modernismo no Pará in Bruno de Meneses ou a Sutileza da Transição, Editora Cejup, Belém, Pará, 1994
ps.: Um pequeno ensaio para mostrar que geografia não é determinante quanto ao grau de intelectualidade de uma pessoa. O retrato é extremamente pessimista, pois encontramos imbecis à exaustão tanto na “indígena” Belém, na “moderna” capital paulistana (com todo o mar de possibilidades e apatias) e na efervescente Champs-Elysée, com seus intelectualóides rasos e prepotentes.



