Filmes 2009
Meu Top de Melhores Filmes do Ano
01 – Entre os Muros da Escola (Laurent Cantet);
02 – Valsa com Bashir (Ari Folman);
03 – Persépolis (Marjane Satrapi);
04 – Foi Apenas um Sonho (Sam Mendes);
05 – Star Trek (J.J. Abrams);
06 – Anticristo (Lars Von Trier);
07 – Abraços Partidos (Almodovar);
08 – A Onda (Dennis Gansel);
09 – O Lutador (Darren Aronofsky);
10 – Inimigos Públicos (Michael Mann);
11 – O Banheiro do Papa (Cesar Charlone e Enrique Fernandez);
12 – Uma Garota Dividida em Dois (Claude Chabrol);
13 – O Silêncio de Lorna (Jean-Pierre e Luc Dardenne);
14 – Up (Pete Docter);
15 – Gomorra (Mateo Garrone);
16 – Milk (Gus Van Sant);
17 – Distrito 9 (Neil Blokamp);
18 – Dúvida (Patrick Shenley);
19 – Watchmen (Zack Snyder);
20 – O Leitor (Stephen Daldry);
21 – Arquivo x 2 (Chris Carter);
22 – Coraline (Henry Sellick);
23 – In Bruges (Martin McDonagh);
24 – Simplesmente Feliz (Mike Leigh);
25 – Hot Fuzz (Simon Pegg e Edgar Wright);
26 – Queime Depois de Ler (Irmãos Cohen);
27 – Bastardos Inglórios (Tarantino) – mesmo sendo o pior do diretor, na minha opinião, ainda vale;
28 – O Casamento de Rachel (Johnatan Demme);
29 – Cinzas do Passado – Versão Redux (Wong Kar Wai);
30 – Pineapple Express (David Gordon Green);
31 – Rebobine por favor (Michael Gondry);
32 – Arraste-me para o Inferno (Sam Raimi)
33 – O Procurado (Timur Bekmambetov);
Infelizmente há lacunas aqui, por conta do que não assisti e que falaram bem a respeito, como Bruno, do Sasha Baron Cohen, o novo do Amos Gitai, e o grande ganhador de Cannes, The White Ribbon, do Haneke. Outros ainda estão chegando, como a nova animação do meu caríssimo Wes Anderson e Thirst, do koreano Chan-Wook Park.
Já Avatar, do James Cammeron, é uma grande icógnita, mas eu espero que seja um fiasco, só pelos trailers, pois eu odeio o Cammeron.
Guilty Pleasures
01 – Terminator 4 (McG) – o filme é cheio de erros, mas algumas premissas são legais mesmo assim;
02 – G.I. Joe (Stephen Sommers) – as cenas de ação foram boas, vai;
03 – Harry Potter 6 (David Yates) – eu acho que o filme consegue transformar o livro em algo nem tão ruim assim;
04 – 2012 (Rolland Emmerich) – eu adoro cinema catástrofe;
05 – Diário dos Mortos (George Romero) – o filme é ruim, mas é um Romero, ora;
Esses filmes, mesmo sabendo que são ruins, me divertiram num determinado ponto. É o típico caso Resident Evil: a melhor franquia ruim do cinema, tanto que até comprei o box com a trilogia.
Nota para o Harry Potter: acho a série um desperdício, pois num determinado ponto a J.K.Rowling se perdeu completamente e distorceu toda a estética e a unidade da franquia. Porém, este filme (O Enigma do Príncipe) consegue trazer ótimas surpresas (ele é bem dirigido, sim). Infelizmente, eu acho que nem o Yates conseguirá dar um jeito no péssimo último livro (resolveram, inclusive, dividi-lo em 02 filmes).
Piores do Ano
01 – Wolverine (Gavin Hood) – pior, por pegar um dos melhores personagens da Marvel e criar esse filme tosco;
02 – Spirit (Frank Miller) – eu realmente não entendi qual era a do Miller ao fazer esse troço idiota;
03 – Transformers 2 (Michael Bay) – um estupro hiperbólico e de mau gosto de efeitos especiais;
04 – A Troca (Clint Eastwood) – odeio como o Clint consegue ser ainda mais fake e de sentimentos baratos;
05 – Os Normais 2 (Daniel Filho) – o cinema brasileiro está vivendo uma praga, hein?;
06 – Austrália (Baz Luhrmann) – o cafona mais megalomaníaco do ano;
07 – O Justiceiro (Lexi Alexander) – aff;
08 – Slumdog Millionaire (Danny Boyle) – para mim, o filme mais hypado e mais desapontador do ano;
Resolvi não assistir Besouro, Salve Geral, Lua Nova, entre outros, pois eles têm cheiro de bobagens astronômicas, grandes equívocos (e pelo que a crítica especializada já disse sobre os citados, minha previsão é correta). Os Normais 2 foi um infeliz incidente, pois fui obrigado por um amigo (exercício sádico dele, por sinal). Espero que Avatar venha para essa lista, lembrando que a mesma será alterada, à medida que algum candidato a ela aparecer.
Playlist 2009

Como não poderia deixar de faltar com minha tradição de listas, ainda mais agora que o ano está no fim (estamos em dezembro, acredite), resolvi dar continuidade à idéia que comecei no ano passado: um top 10 com o que eu mais ouvi neste ano de 2009 (e cujos lançamentos foram, mais ou menos, recentes). Aqui vai:
1 – Bat for Lashes – Two Suns
2 – Yeah Yeah Yeahs – It’s Blitz (que traz os dois melhores singles do ano, na minha opinião: “Zero” e “Heads Will Roll”)
3 – Matt and Kim – Grand
4 – Air – Love 2
5 – Muse – Resistance
6 – Depeche Mode – Sounds of the Universe (álbum que tem o melhor video para single do ano, com “Wrong”)
7 – Marilyn Manson – High End of Low (a volta do baixista fez com que a banda retornasse aos trilhos com “Wow”)
8 – Vampyros Lesbos – Sexadelic Dance Party
9 – The Cinematic Orchestra – Ma Fleur
10 – Sharon Jones and the Dap Kings – 100 Days, 100 Nights (pós-modernidade vintage)
Porém outras coisas tocaram bastante no meu i-pod, como o EP “Long Gisland”, do Beirut; o novo álbum do Placebo, “A Battle in the Sun” (que tem um single lindo, chamado “Kings of Medicine”); o “Pocket Symphony”, do Air (não consigo me desligar desse álbum); 02 álbuns do Kings of Convenience (“Quiet is The New Loud” e “Riot on an Empty Street”); o New Young Pony Club, com o “Fantastic Playroom”; Peter Bjorn & John, com o single “Young Folks” (esse merece o prêmio de chiclete do ano); o Wilco com seu novo álbum de mesmo título; além dos eternos, como o Nine Inch Nails (“With Teeth”, “The Fragile” e “The Slip”, os quais nunca param de tocar), Chet Baker, Charlie Parker, John Coltrane (estou cada vez mais jazzístico, sem contar com a Nina Simone e os projetos mais jazz do Andrew Bird), David Bowie (clássico inabalável), Anthony and the Johnsons, Suede, Pulp e Talking Heads (com seu álbum de 1977).
Devo reconhecer que muita porcaria também tocou, afinal, quem, numa esteira de academia – fato constante na minha vida durante este ano -, passa incólume dos pop descartáveis e dançantes? (porém nunca Lady Gaga, Beyoncé, Pussycat Dolls e Rihanna, pois nutri um ódio sem precedentes pela música delas). Entrei numa vibe trash nostálgica mesmo (basta falar isso).
E, por outro lado, a música brasileira desapareceu de vez da minha playlist (se bem que nunca tive uma proximidade grande com a música nacional mesmo). Simplesmente não gosto. Meu apreço parou na Bossa Nova das antigas, que, por sinal, teve uma certa representatividade com o álbum “Vagamente”, de 1964, da Wanda Sá.
Batman – Arkham Asylum
Eu não poderia deixar de comentar o primeiro jogo do Play3 que eu zerei, ainda mais quando ele se mostrou fenomenal: Batman, Arkham Asylum, lançado no ano passado e considerado por qualquer fã um dos games mais bem sucedidos no quesito ambientação de personagem de quadrinhos para outra plataforma (que não a dos quadrinhos, é claro).
Devo mencionar, inclusive, o quanto eu sentia falta de artistas e/ ou obras que explorassem o tal do asilo em Gotham, já que os vilões de toda a galeria do homem morcego sempre vão tê-lo como residência ocasional. Fora a impecável graphic novel do Grant Morrison, com a arte do mestre Dave Mckean (e que já fez aniversário de 15 anos de publicação), não havia o enfoque merecido dado a este local especial. Bem, isso é algo que agora foi cumprido no mais alto estilo.
Com arte e jogabilidade impecáveis, a experiência de jogar Arkham Asylum é viciante e inteligente. A narrativa seqüencial é repaginada de maneira intrincada, sem aquela sensação óbvia de início, meio e fim do jogo. Tudo foi feito e pensado na medida e à altura do maior detetive da DC comics. Alguns vilões possuem participações memoráveis (O Charada, com suas pistas espalhadas pela ilha, e o Espantalho, com suas alucinações), além de um bric-à-brac de referências ao mundo do Cavaleiro das Trevas, mas é o Coringa (lógico), a Harley Quinn e a Poison Ivy que são os carros chefe da estória. A premissa parte do momento no qual o Coringa empreende uma rebelião no Asilo.
Já está do lado dos meus jogos prediletos, como Resident Evil 4 (ainda do Play 2, pois irei começar o novo Resident Evil no final de semana), Casttlevania, Midnight Club e Silent Hill.
Maus
Continuarei fazendo uns posts sobre quadrinhos adultos (os que eu tiver lido, claro) que têm aportado no mercado editorial brasileiro, principalmente por conta da iniciativa da “Companhia das Letras”. O escolhido da vez é “Maus”, do americano e filho de poloneses Art Spielgeman.
As estórias foram publicadas, originalmente, na revista americana e underground “Raw”, entre 1980 e 1991, porém, tempos depois, Art Spiegelman, sócio-fundador e editor da publicação, compilou um primeiro volume em 1986, com o título “Maus – A história de um sobrevivente”. Cinco anos depois veio a segunda compilação, “Maus II – E aqui meus problemas começaram”. Em 1992 o autor ganhou o prêmio Pulitzer, um dos mais conceituados do meio jornalístico e literário, e nunca antes dado a uma HQ.
No Brasil, sua re-publicação se deu em 2005 pela já citada “Companhia das Letras” (mas já havia ocorrido em versões separadas pela Ed. Brasiliense, em 1986, Maus I, e 1995, Maus II), num formato bem acabado (com as duas compilações num tomo só) e de preço acessível, e foi, na minha opinião, um dos testes da editora para a implementação de um selo voltado para quadrinhos adultos (o que ocorreu agora em 2009, com o “Quadrinhos na Cia.”).
A narrativa toda se baseia nos relatos do pai do autor acerca de sua experiência como um judeu sendo perseguido pelo regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial, com direito a detalhes sobre Auschwitz nunca antes tratados de maneira tão realista, crua e reveladora. Acho que não havia lido, nem assistido qualquer outro relato que soasse tão chocante e doloroso.
Um ponto interessante é a metáfora que usa de elementos antropomórficos para estabelecer as relações étnicas da época (os judeus eram os ratos; os nazistas, os gatos; e os americanos, os cachorros). A metalinguagem narrativa para nos situar na relação entre o autor e seu pai (o qual vai relatando os acontecimentos para o filho, nos dá a sensação de que o quadrinho está sendo construído à medida que se lê), expande o campo de compreensão da mídia para outros de experimentação estéticos.
A arte suja e sem muitos floreios também se mostra como outro ponto para se denotar, pois além de manter o estilo editorial da revista “Raw”, serve como contraponto para quem já está tão cansado de ouvir falar da Segunda Guerra sob o mesmo enfoque (a mídia dos comics foi uma idéia genial).
Considerado como um dos mais importantes da História dos Quadrinhos por críticos especializados (ao lado de Sandman, Watchmen, Batman – O Cavaleiro das Trevas e Spirit), “Maus” já virou até leitura obrigatória em cursos de Arte na Europa e EUA (ao lado dos já citados títulos). Fundamental, épico e original.
Fazendo um paralelo com a idéia que Deleuze tem de rizoma (num discurso pós-estruturalista para tentar compreender a organização dos dispositivos na contemporaneidade), “Maus” funciona como aquela arte que deve, ao deslocar o olhar acostumado do leitor, expandindo seu campo de experiência e experimentação, levá-lo para um local de trânsito entre a sua realidade e a pós-modernidade (fugindo assim da profecia apocalíptica de Foucault, do sujeitamento e assujeitamento do ser na lógica da microfísica do poder).
Umbigo Sem Fundo
“Umbigo sem Fundo”, do autor americano Dash Shaw, foi uma das graphic novels mais comentadas de 2008 nos EUA. A “Companhia das Letras”, através de seu novo selo “Quadrinhos na Cia.”, cujas publicações privilegiam o universo dos quadrinhos, então, resolveu comprar a idéia e lançou, agora, em 2009, a obra no mercado brasileiro (estreando sua campanha editorial deste ano, ao lado de outros títulos também interessantíssimos). Uma das melhores aquisições do ano que qualquer um pode fazer.
Shaw já havia trabalhado com publicações independentes e pela internet, além do álbum “The Mother’s Mouth”, mas foi somente através de “Umbigo sem Fundo” (Bottomless Belly Button) que o reconhecimento chegou (a estória foi indicada como uma das melhores publicações americanas de 2008 pela imprensa especializada). Em mais de 700 páginas (um pequeno e fluido tijolo), conhecemos a família Loony, composta pelo pai, a mãe, seus três filhos, além dos netos.
Na narrativa, após 40 anos de casados, os “senhores da família” resolvem se divorciar, e, para tanto, convidam seus filhos já crescidos para uma reunião na casa de praia, para um “acerto de contas”, um bate papo. Num estilo narrativo espirituoso, lírico e sofisticado, o quadrinho vai compondo um cenário de profundidade incrível, com personagens críveis e densos.
Em determinados momentos eu pensava no andamento do filme “A Lula e a Baleia”, do diretor Noah Baumbach, e de alguns outros do atual cinema independente americano. A sutileza da narrativa, tangenciando um tema tão delicado, é de espantar até o leitor mais comprometido. A arte, da mesma forma – bela, simples e originalíssima -, flui no compasso de leveza e sustentação de coisas no ar que a saga traz.
Eu acho que todos que puderem comprar não devem pensar duas vezes. Para quem gosta de quadrinhos é um prato para se degustar suavemente (como o próprio autor diz, aos poucos, e cada um dos três capítulos). Ah, o preço é super acessível se levar em consideração o tamanho da publicação (R$ 55,00).
Funeral
Por mais que eu quisesse, não tinha como lhe conter por inteiro. A maneira como estávamos… a maneira como eu estava. Habitávamos partículas aéreas e imperceptíveis, as quais se espiralavam e faziam eu esquivar o olhar. Este mesmo olhar se voltava para o mal estar em meu peito e para o espectro da dor que deveria habitar o seu.
Percebia olhares de soslaio?, mas o alcance estava além dos meus braços, pois cadeiras enfileiradas se tornavam obstáculos dolorosos. Tudo estava impregnado de um resgate de coisas boas que tinham acontecido, fenecido. Eu somente queria lhe abraçar com toda a ternura com a qual faltei durante tanto tempo.
A falência emocional dos meus últimos dias me trazia uma arritmia, medo!, e, lá no fundo, uma vontade sôfrega de lhe re-convidar para o que quer que seja que representávamos um para o outro.
Há muito tempo que eu estou/estava adormecido.
para A.F.S.
Arte Pará 2009 – Continuação

Continuando minhas reflexões sobre o Arte Pará 2009, desta vez vou concentrar meus comentários na mostra do Museu de Arte da UFPA, a qual ganhou o título “Imagens e Pensamentos”, com a idéia de concentrar o máximo das experimentações do salão no campo da video-arte e de obras que estivessem nesta co-relação.
Alguns ótimos destaques para certos artistas que conseguem transitar por este lugar de provisoriedade da imagem, como a continuação da monumental obra “O Marco Amador”, do pernambucano Paulo Meira (em sua já citada imersão onírica, porém desta vez mais sexualizada e, literalmente, global); as 09 pequenas telas em óleo do artista Fábio Baroli, do Distrito Federal, intituladas “Narrativas Privadas – Composição 02″ (este apresentou um ângulo de fotografia cinematográfico nas obras, com pinceladas secas e retas, transmitindo uma crueza íntima nas composições); a obra “Interludium”, da artista Val Sampaio, ao mostrar o random da vida na pós-modernidade, com suas repetições e saturações; as duas fotografias da artista gaúcha Fernanda B. Gassen, intituladas “Agenciamento de Visitas” e “Agenciamento de Visitas para Estudo de Composição – Natureza Morta” (as duas fotos se relacionavam de maneira contemporânea com duas famosas telas do holandês Johannes Vermeer); o trabalho em video-arte do artista de Cruzeiro, DF, Dirceu da Costa Maués, intitulado “Em um Lugar Qualquer” (ganhador de outro prêmio de aquisição, ao mostrar a nostalgia da passagem, do tempo que escorre, das imagens que querem registrar cada segundo como forma de se agarrar a um corpóreo agora, quando do período de sua viagem de Belém para Brasília de avião); o excelente trabalho em video-arte da artista Melissa Barbery, intitulado “Quince Dulces y Quince Cuadros” (mostrando o espetáculo das identidades nas metrópoles e a dificuldade de se relacionar com campos tão plurais; o homem contemporâneo perdido no caos do excesso de informações, no blur, na incomunicabilidade; tudo através da janela de um carro, passeando por uma cidade qualquer, ouvindo um idioma que lhe é extranho); e mais outra obra, também em video-arte, só que da consagrada artista Elieni Tenório, intitulada “Panoplia do Corpo” (ganhadora de Menção Especial do Júri), fazendo uma síntese de sua relação quase maníaca com o universo do vestuário, da feminilidade, do artezanal e do imaginário surreal.
Neste mesmo espaço, do Museu de Arte da UFPA, é que se pode contemplar o registro do trabalho da artista Luciana Magno, intitulado “VIT(R)AL”, e ganhador do 3° Grande Prêmio do Salão. Com uma premissa simples, porém atualíssima, a artista permaneceu habitando, durante 01 semana, uma loja de móveis modulados da cidade, fazendo um contraponto a este universo tão racionalizado, clean, e pensado para se encaixar nos mínimos detalhes. Coma sua presença interferindo no local, Luciana representava o papel da nota dissonante, fazia pensar acerca da perda de pessoalidade (inclusive nos objetos que nos são tão íntimos). E, para aumentar o espectro de perda de pertença das coisas, a artista se manteve vigiada on line, durante a sua semana de estadia, 24h por dia, numa performance-vida irretocável.
E pra não dizer que eu não falei dos desnecessários e formulei minhas críticas… Aqui vão:
1 – As três telas do artista Elton Luís dos Santos, de Belo Horizonte, sem títulos, trouxeram outro lugar comum para a mostra;
2 – A esquecível série “Educação para o Amor”, do paulistano Marcelo Amorim, o qual também incorreu numa inexpressividade de matar de tédio o mais otimista dos seres;
3 – A terrível lembrança com a volta do trabalho em video-arte “Cenesthesia”, dos artistas Jorane Castro, Toni Soares e Dênis Maués. Por mais que me digam que esse vídeo marcou um início da experimentação em video-arte no Pará, só posso pensar no quanto começamos mal (se esse for o ponto de partida); e, creio, ainda, que a culpa nem é dos artistas, pois o resultado era, antes de mais nada, um mero exercício acadêmico. Seu resgate (nostálgico-histórico?) para o salão foi um dos pontos máximos na categoria equívoco generalizado;
4 – A obra da artista Danielle Fonseca, intitulada “Mar Absoluto/ Retrato Natural”, pois ela conseguiu me passar a sensação de uma ótima idéia, porém mal desenvolvida. Observar a obra foi constatar, para minha pessoa, elementos impertinentes, como fotos antigas, meio desgastadas, em meio a um papel de parede novo e de mau gosto, desconectado, tendo uma trilha sonora de fundo ainda mais irregular. O resultado chegou no fake total.
5 – A tentativa de achar uma relação contextual entre as obras no segundo salão do primeiro andar do Museu foi em vão.
Arte Pará 2009
Esse post já deveria estar aqui há uma semana, mas acabei postergando-o um pouco, para poder falar da maneira mais imparcial possível. Esta, que é a 28° Edição do maior Salão de Arte Contemporânea do Norte do País, e cuja temática foi Extremos Convergentes, teve curadoria dos Drs. em Arte Orlando Maneschy e Marisa Mokarzel. Os trabalhos do Salão foram distribuídos por 06 espaços de exposição belenenses: Museu Histórico do Estado do Pará (MHEP), Museu de Arte de Belém (MAB), Museu de Arte Sacra (MAS), Casa das 11 Janelas, Museu Paraense Emilio Goeldi e Museu da UFPA.
Os grandes vencedores deste ano foram:
1° Grande Prêmio: Berna Reale, com a obra “Quando todos Calam” (uma performance registrada por fotos, na qual a artista se deitou em uma maca em pleno Mercado do Ver-o-Peso, despida, com todo um aparelho digestivo real disposto em cima de sua barriga de maneira precisa);
2° Grande Prêmio: Armando Queiroz, com a obra “Tempo Cabano”, na qual foram dispostas duas imagens nos topos opostos das escadarias bifurcadas do Museu de Arte de Belém (sendo uma pintura do artista do começo do século XX, Arnolfini, do acervo do próprio MAB, e, em contraposição, uma fotografia do artista contemporâneo Luiz Braga). A obra de Braga fazia uma analogia à primeira pintura, só por curiosidade. Ao centro das escadarias, onde estas se encontravam, ainda na realocação do Armando Queiroz, havia uma caixa de vidro com um amendoim e uma moeda, os quais aludiam, contextualizadamente, às duas imagens;
3° Grande Prêmio: Luciana Magno, com a obra “VIT(R)AL” (uma performance, na qual a artista ficou durante 01 semana morando numa loja da cidade velha de Belém, sendo acompanhada por câmeras on line 24h).
O que eu penso disso? Bem… Com a artista Berna Reale, eu vejo um trabalho merecedor do primeiro lugar do salão, trazendo elementos identitários para uma performance cheia de referências lírico-políticas: homens-humanos (representados pela própria artista fotografada), sempre nus, em sentido amplo, fragilizados ante a natureza implacável das coisas, observando uma barbárie social que é alheia a tudo e a todos; barbárie que os deixa impotentes em relação aos seus conscientes, sobrando-lhes, então, tentativas antropofágicas de clamar por alguma resposta às suas eternas perguntas (mesmo dentro de suas perspectivas resignadas ante o inexplicável, a proximidade da morte, o niilismo).
Para o trabalho do artista Armando Queiroz, só posso dizer que este foi tremendamente desapontador (talvez num enfoque diretamente proporcional à megalomania da idéia). Apropriar-se de obras alheias não é uma novidade, e, desta vez, na minha opinião, este ato se deu beirando o simplório (em toda sua carga negativa de entendimento). Como já disse o poeta Rodrigo Barata, num de seus novos livros: um desnecessário! Deflagrar diferentes épocas numa mesma obra, com um possível viés semelhante, mostrando que as coisas não mudam tanto quanto imaginamos? Risível na execução.
Uma pena a escolha deste segundo lugar, pois muitas obras se mostraram deveras mais interessantes e conscientes de seu papel na pós-modernidade, sem tratar o expectador levianamente. Aqui vão algumas delas: “Dead Pixel”, instalação de Flávio Cardoso de Araújo (excelente e multifacetado trabalho, o qual mostra a imagem em todo seu esvaziamento social); as telas de Paulo Wagner Oliveira: “Mulher Sentada”, “Mulher em Pé”, e “Mulher de Costas” (num recorte de referências, as quais vão desde o expressionismo, o fauvismo e o modernismo, até os traçados de quadrinhistas do cenário independente); A obra “Nau Frágil”, de Paula Sampaio, e ganhadora do prêmio de Aquisição (um recorte delicado da intimidade da fotógrada, do ser humano à deriva); “O Marco Amador”, do artista pernambucano Paulo Meira (uma obra monumental composta de 2 vídeos e diversas fotografias, num grande exercício metalinguístico e lynchiano acerca do fazer arte); as instalações do curitibano Geraldo Zamproni, intituladas “Sustentabilidade III”, “V” e “VII” (trazendo a discussão do diálogo relativizado; do jeitinho que se dá para transitar pelos vários setores sociais e/ou institucionais); o duplo fotográfico do artista baiano Ayson Heráclito, intitulados “Bori” e “Xangô” (uma releitura candomblé-antropofágica das telas do mestre renascentista Giuseppe Arcimboldo); e a bem humorada obra do artista pernambucano Bruno Vieira de Brito, “O Sertão vai virar Mar” (a idéia de um barco de papel no sertão já vale por mil palavras).
Dos artistas convidados, alguns trouxeram elementos representativos para o desdobramento da temática do Salão e do cenário contemporâneo: o artista Acácio Sobral trouxe duas obras lirico-reflexivas, sendo uma delas uma video-instalação, intitulada “Correspondências”, ganhadora do primeiro lugar em outra edição do Salão e já muito conhecida, e outra, instalação, chamada “Desconstrução” (disposta, sozinha, numa das salas da Casa das 11 Janelas). Cada qual lida de maneira delicada e sofisticada com temas relacionados à memória, ao realismo fantástico, à nostalgia, à sensação de êfemero. “Desconstrução”, em especial, parte da idéia de reaproveitar materiais de uma obra anterior do artista e reformulá-los, mostrando as possibilidades de resignificação e criatividade. Nesta instalação, por sinal, há um impacto psicológico gigantesco, quando nos olhamos e nos sentimos imersos pela idéia de pertença gerada na sala da obra. Abaixo, uma fotografia de parte da obra, ainda em seu estúdio.
A artista Cláudia Leão também participou como artista convidada, com uma obra de video arte, mais precisamente, fazendo um panorama de várias de suas fotografias: “Protocolo de Infinitas Imagens Cotidianas II”. A artista criou uma sensação de hipnose fantástica em frente à sucessão de quadros da obra e à estética íntima das imagens (a artista continua sua discussão acerca do volume de imagens que cada um de nós possui na era digital, e como as transformamos em meras posses). Walda Marques, da mesma forma, foi outra convidada que teve sua obra (forografia-instalação) disposta na capela do MHEP, e lidou, sob outra lente, com o imaginário íntimo, mágico e nostálgico.
Pontos Baixos:
Geralmente, em todo e qualquer evento há defeitos, assim como em toda e qualquer crítica: uns mais relevantes, e outros, porém, nem tanto. O exercício de levantar questionamentos (sejam os defeitos, e, também, os acertos, por conta da tal da crítica) é embasado, vale afirmar, na crença de que somente através de reflexões, sob o ponto de vista do ser humano racional, que teremos desenvolvimento. Vamos observar alguns:
1 – Após procurar na internet sobre o Arte Pará 2009, constatei que a única maneira de se informar acerca deste evento era pagando uma taxa para o portal ORM (cadê a imprensa geral, as opiniões, os meios de divulgação independentes?). E olha que estamos no momento de acontecimento do Salão e também da globalização, da ausência de fronteiras, da informação democrática. Até agora não consigo enteder o porquê deste fato, deste cartel informacional;
2 – Não há crítica alguma acerca da arte produzida no evento. Todos se retraem com medo, ou isso é uma forma de exercer a política do melindre e do correto (uma ditadura às avessas, já que a informação é controlada)? Se bem que, também, posso dizer que os jornais locais não querem textos de crítica de arte especializados (é só abrir a página dos jornais e ver que não existe nada nesse sentido), uma vez que há sempre alguém sem formação específica para cumprir este serviço (e a crítica destes últimos dá lugar ao formato receita de bolo, pedaço de texto demonstrativo e vazio);
3 – A propaganda veiculada na televisão é extremamente elegante, porém inexpressiva. Quem, em face daquela chamada na TV, vai querer ir para o Museu, quando este é um hábito praticamente inexistente na população? Cadê as alternativas de transformá-lo em algo mais atrativo?
4 – Eu acho que a divisão do evento em vários lugares (06, para ser mais exato) comprometeu o acesso a determinadas obras. Ok, MAB, MHEP, MAS e as 11 Janelas são lugares próximos (um grande circuito cultural), mas o Museu de Arte da UFPA, assim como o Museu Emílio Goeldi ficaram mais periféricos em relação ao concentramento do evento (ainda mais sabendo que eles possuem um número inexpressivo de obras). Eu creio que isso irá relegar certos trabalhos para menos gente ainda (ainda mais quando não há, senão pela boa vontade de uns poucos, a tentativa de levar mais visitantes para freqüentar o museu);
4 – 02 artistas na mostra me causaram uma sensação de falta de criatividade e preguiça crônicas, e eu não poderia deixar de passar despercebido: a entediante e lugar-comum série fotográfica do artista Rafael Adoyán Tindó, e o horrendo trabalho óbvio (com o argumento oportunista de inclusão social) do artista Jair Rabindranath.
5 – Mais uma vez, a escolha do equivocadíssimo segundo lugar, com a obra, já citada, do artista Armando Queiroz.
Tirando Conclusões
Para não me prolongar mais (pois eu já sei que escrevi para além da conta), termino este texto com um olhar de satisfação acerca do evento, com suas escolhas e obras pertinentes, bem selecionadas. Claro, falta um pouco de inclusão artística (tentativas de fazer com que a leitura seja mais fácil por parte do público leigo, num esquema didático mesmo), mas esses detalhes ficam guardados para o próximo Salão. Frente à variada experiência possibilitada pelos artistas, os quais colocam suas identidades em trânsito, percebemos nosso papel híbrido nessa cultura global, e isso é o que importa.
ps.: um próximo post virá falando de outros artistas do Salão, bem como da ganhadora do 3° Grande Prêmio. Se possível, até lá, conseguirei tirar fotos, já que não adiantou eu apresentar meu comprovante de estudante de arte da universidade para poder tirar das obras no Salão (burocracia pós-moderna mesmo).
Inglorious Basterds
Acabei de voltar de uma sessão de Inglorious Basterds, o novo filme do diretor Quentin Tarantino, e posso afirmar que vim cheio de pensamentos e perspectivas acerca do cinema nerd-hypado do americano. Bem, mas vamos com calma.
Inglorious Basterds, de longe, é o filme mais irregular e falho da carreira do diretor, mas nem por isso se torna algo ruim, uma experiência descartável. Muito pelo contrário, pois é divertido e cheio de momentos brilhantes. O maior pecado está na tentativa do Tarantino de ser tão megalomaníaco, querendo fazer uso de diversos recursos narrativos (uma colcha de retalhos referenciais), os quais incorrem numa obra que não se decide por qual caminho vai tomar (mas isso é um olhar intelectual e xiita da minha parte mesmo).
Eu tive a sensação de ver escolhas divergentes em vários pontos da película, as quais comprometiam a unidade do todo. Aqui vão algumas:
1 – O início e a maior parte do desenvolvimento são muito mais sutis, com as brincadeiras cinematográficas mais regradas (os maneirismos dos atores, por sinal, é fantástico, principalmente da interpretação genial do Christoph Waltz, além de umas seqüências impecáveis, como a que ocorre numa espécie de pub) e de roteiro menos óbvias. Mas à medida que o climax vai chegando, o equilíbrio super interessante cede espaço para um andamento exagerado e apressado;
2 – O hiperrealismo na violência num filme estilizado não me soou direito. É uma opinião extremamente pessoal, mas eu sinto que as duas linguagens não se encaixaram;
3 – A edição me incomodou em certos momentos. Alguns planos eram extensos demais; outros poderiam muito bem ser eclipsados da narrativa sem prejuízo;
4 – O tom de farsa do final se entrega ao clichê e ao esperado (em contraposição ao restante da narrativa, a qual se mostra ágil e incerta). Infelizmente, a morte de um certo figurão foi uma sacada bem dada no filme errado, da maneira errada;
Acho que por alto é isso. Talvez, numa segunda chance, o filme mude de perspectiva para mim, mas ele, por enquanto, não conseguiu me fazer esquecer destes pequenos lapsos citados. Gosto de acreditar que nem todo grande diretor acerta em todas as suas tentativas.
Quadrinhos Underground: Exit Wounds e Persépolis
Uma das coisas mais legais que venho descobrindo atualmente são os chamados quadrinhos underground, principalmente os originários de Israel e Iran. Vou aproveitar para falar um pouquinho de dois deles que conquistaram esse que vos fala: Exit Wounds (importado), da escritora Rutu Modan, e Persépolis, da já conhecida iraniana Marjane Satrapi.
Cada qual, à sua maneira, tenta, sob um viés delicado, tratar dos conflitos político-religiosos da região (adoro esse estágio pós-moderno, o qual possibilita o acesso a obras tão distintas e bem feitas, fora do circuito EUA-Europa). A arte, por sinal, é o primeiro ponto a ser observado, pois não tenho como dizer que não são lindas. Exit Wounds é a mais impressionante, pela sensação de movimentação do traço (e a minha edição de luxo em capa dura valoriza ainda mais o conjunto).
Em Exit Wounds, um menino tenta ajudar a ex-namorada de seu pai desaparecido a encontrá-lo (crê-se que o pai do garoto tenha se envolvido num ataque à bomba num bairro de Tel Aviv). Com esta premissa, ambos passam a vasculhar o seus passados e de um país em eterno conflito com os povos vizinhos, fazendo o uso de um lirismo narrativo e de uma nostalgia sufocantes.
Persépolis, o qual já foi adaptado para o cinema (e indicado para o Oscar de Melhor Animação), fala de uma garota de pais e educação liberais crescendo no período de fortalecimento do fundamentalismo do Iran. O filme, vale ressaltar, possui pontos diferentes em relação ao quadrinho (acho que são duas obras que se completam), pois cada um dos dois tem pontos impressionantes e micro-narrativas líricas e cheias de bom humor para se tratar de períodos tão turbulentos. O carisma e o tom de realidade e profundidade psicológica da protagonista (que é autobiográfica) fazem desse livro uma experiência inesquecível.
Lembro ainda de um filme (o qual virou quadrinho, posteriormente) não comentado por mim através do blog: Valsa com Bashir, que traz muito dessa abordagem política-pop-lírica. Neste filme israelense, o foco é em um personagem que desenvolve uma amnésia sobre um determinado período de sua vida (a guerra envolvendo o Líbano e Israel). Mais uma vez um personagem vai atrás de suas raízes e de suas dores mal curadas no caminho.
É super interessante (indicação minha) assistir Balsa com Bashir e compará-lo em perspectiva com as outras duas obras citadas aqui, vendo que cada uma tenta, através da arte, exorcizar fantasmas de uma região conflituosa e consciente de seu papel artístico e identitário, mostrando que o crescimento desse nicho fantástico é definitivo.
Atualmente espero cada vez mais títulos representativos vindos desse caldeirão de produção. Basta que o espaço no mercado editorial brasileiro aposte nesta idéia (como a Companhia das Letras, por exemplo, está apostando).








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