Café Beatnik

Montagem de Tempos para uma Amiga que partiu

Posted in Cinema, Literatura, Variações Pessoais by cafebeatnik on maio 15, 2020

A única resposta para esse crime é transformá-lo num crime de todos. Partilhá-lo. Assim como a ideia de igualdade, de fraternidade. Para suportá-lo, para tolerar a ideia, partilhar o crime (DURAS, Marguerite. A Dor. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986: 60).

A dor é uma das coisas mais importantes da minha vida (DURAS, Marguerite. A Dor. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986).

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Sofro silenciosamente no claustro. Em meio ao horror de uma pandemia que carrega, hoje, 15/05, 14.131 vítimas no Brasil, penso nas minhas dores particulares, naquelas que me consomem em meu espírito lacônico: perdi uma querida amiga e companheira de trabalho da UFPA, Ana L.. Esta amiga era uma persona complexa, intelingentíssima, partilhava ações cineclubistas em Belém junto de mim e de outros dois amigos, Marco Antonio Moreira e Alex Damasceno. Ana e sua voz rouca, Ana e sua presença mágica. Ela partiu!

Como fazer jus a suas memórias comigo? Como iluminar essa falta, essa saudade de quando vinha a minha casa para conversarmos, para trocarmos arquivos cinematográficos que nos aqueciam? Como prestar a devida homenagem a ela que, mesmo frágil em sua recuperação de uma quimioterapia recente, enviava mensagens cheias de humor e de mau humor, pois esta era uma linguagem partilhada por nós?

Nossa relação tomou um rumo mais profundo, lembro-me bem, no momento em que apresentei uma conferência na Casa das Artes, em Belém, dia 25/04/2017, intitulada Godard Além dos Últimos Limites. Ana, entusiasta confessa de Jean-Luc Godard, esteve na plateia. Eu a olhava e ficava animado com sua alegria sobre o tema. Foi lá que pôde me instigar com suas digressões sobre minhas pesquisas, pesquisas as quais estavam em algum lugar entre a vasta obra do cineasta franco-suíço supracitado, entre textos de Julio Cortázar, Philippe Dubois e Sergei Eisenstein, entre as Histórias da Arte não contadas. Foi naquela noite que marcamos nossa aliança para hastear os filmes 2 ou 3 coisas que sei dela (1967), A Chinesa (1967), Week-End à francesa (1967) e Tudo vai Bem (1972) como modos contemporâneos de se pensar por imagens, necessários para nosso presente.

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Naquela conferência nós nos (re)conhecemos. Era como se tivéssemos selado um pacto, uma promessa de amigos de muitos anos. Ela me antecipava no que eu ia falar, eu a antecipava no que ela exprimiria com um sorriso de cumplicidade e amor pelas imagens e pela linguagem. Éramos trapeiros, no mesmo sentido enredado por Walter Benjamin (Passagens. Belo Horizonte: UFMG, 2007), quando nos apropriávamos de fórmulas espirituosas para, nos andrajos, propormos outros usos.

“E a linguagem (ou certo uso da linguagem) será o instrumento mais indispensável de todo este trabalho de desconstrução. A escrita como escalpelo, pois a revolução vai de par com a educação. […] Não apenas mostrar as coisas, mas dizê-las, mostrar que as dizemos e dizer que as mostramos. A linguagem como matéria, como objeto exclusivo. Mesmo as imagens servirão para produzir linguagem, texto-imagem. Não se trata mais de contar e nem mesmo de representar, mas de apagar para (re)escrever, de decompor para ver se podemos (re)construir, de rasurar para (re)fazer. Trabalho de palimpsesto cinegráfico” (DUBOIS, Philippe. In: DUBOIS, Philippe. Cinema, Vídeo, Godard. São Paulo: Cosac Naify, 2004: 268-271).

Pela linguagem, chegávamos à Montagem, experiência interna ao cinema e reestruturada pela filosofia, nosso combustível não restrito à sala do Cine Líbero Luxardo somente. Por entender que a montagem supõe a desmontagem, “dissociação prévia do que foi construído” (DIDI-HUBERMAN, Georges. Conhecimento pela Montagem. In: DIDI-HUBERMAN, Georges.. Diante do Tempo: História da Arte e Anacronismo das Imagens. Belo Horizonte: UFMG, 2019: 132), esta mesma operação era um uso do recurso da imaginação, tão cara a nós – “A imaginação, montadora por excelência, desmonta a continuidade das coisas somente para melhor fazer surgir ‘afinidades eletivas’ estruturais” (DIDI-HUBERMAN, 2019: 135); afinidades eletivas entre nós.

Eu bem vejo, vividamente, sua mente processar e (re)imaginar, ainda agora, um mundo ausente de fascismos, ausente de toda essa vilania que nos cerca e nos leva à morte. Eu bem vejo você me apoiar quando parafraseava Pasolini – ao dizer que o mundo não era possível mais para os inocentes. Você foi parte integrante de uma proposição-paradoxo sincera que eu carrego, montagem iconoclasta de mundos; fonte do pecado por seu anacronismo, fonte do conhecimeto partilhado pela sua perspectiva de criar historicidade.

Você, Ana, se juntou a diversos outros vagalumes, não está mais conosco, comigo, de maneira a deixar uma lacuna, vazio, para celebrar alguns dos nossos ídolos – Jean Cocteau, Glauber Rocha, Chantal Akerman, Marguerite Duras. Tentarei mantê-los no meu verbo, assim como você os manteve no seu. E mais, serei eu também a celebrá-la! Nos meus dias de chuva, nos meus dias de sol, sua falta será sentida em frames. A cada sessão de cinema, você estará comigo.

Sei bem, minha intelectual, que você surgirá nos créditos intangíveis de minha memória…

John Fletcher, Quarentena, 60º dia.

Notas sobre a Necropolítica

Posted in Artes Visuais, Literatura, Variações Pessoais by cafebeatnik on abril 20, 2020

Se você não está vendo, não posso ver por você (DURAS apud ANDRÉA, Yann. M. D. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983: 62).

Escrever é saber resistir à escrita (DURAS apud ANDRÉA, Yann. M. D. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983: 100).

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As horas se arrastam em um tom de enorme pessimismo. Em quarentena há mais de 30 dias,  testemunho contínuas atualizações sobre a peste:  somam-se 168.500 mortos no mundo, sendo os EUA o atual país com maior número de vítimas, mais de 40.000, com um ápice de mais de 4.500 perdas somente entre 16-17/04. A Europa lamenta seus mais de 100.000 mortos, ao passo que o Brasil, com um visível necroliberalismo em curso, quase não debate o significado das 2.484 perdas humanas já oficializadas, isso segundo dados pouco representativos até o momento.

Em uma semana que também testemunhamos a mudança do Ministro da Saúde – sai o então apoiador do infame Impeachment, contrário ao sistema de saúde pública; empoleira-se nova caricatura anacrônica do 3º Reich -, um debate que retomo traz o filósofo Achille Mbembe, com novas ênfases sobre o conceito de Necropolílitica, de maneira a buscar alternativas para não sucumbir à enfermidade mental. Devo acrescentar, só para esclarecer o fio de relação com minhas  publicações anteriores, que esta retomada continua certa tentativa de aliança, por meio de imagens a contrapelo, entre Walter Benjamin (2011) e as denúncias dos crimes do Atlântico, crimes não encerrados, mas ampliados neste Konzentrationslager chamado Bra$il.

Em recente entrevista publicada no site Lobo Suelto!, Mbembe (2020) direciona sua crítica para os manejos adotados por governos para decidir quem viverá, quem morrerá, e como viverão e morrerão certos corpos sociais – e advinhe!, o Brasil não poderia não ser outra materialização mais clara deste conceito necrofílico para o filósofo. O mesmo pontua, não obstante, sobre como políticas de contenção são dependentes de políticas públicas, e estas políticas, quando ausentes, afetam as mesmas raças, classes sociais, gêneros e (acrescento) performances de gênero, que foram e são vitimizadas pelos podres poderes que conhecemos.

É a partir deste ponto de partida, portanto, que retomo dados sobre a exposição Histórias Afro-Atlânticas, ocorrida em São Paulo durante o segundo semestre de 2018, com curadoria de Adriano Pedrosa, Ayrson Heráclito, Hélio Menezes, Lilia Moritz Schwarcz e Tomás Toledo. Esta exposição, vale destacar, nos legou novo agrupamento visual e bibliográfico para um projeto de reescrita a contrapelo.

A primeira imagem deste enredo experiencial, desse modo, é do artista paulistano Jaime Lauriano. Ela chega-me de imediato em sua simplicidade mais profunda que qualquer conceitualismo hermético. Sua presença na supracitada exposição é mais uma produção de Lauriano voltada para fazer refletir sobre a cartografia do racismo e a história da violência no Brasil.

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Apresentavam iminente ameaça à ordem pública, de Jaime Lauriano.

Mediada por uma placa de madeira entalhada pelos Black Hippies (HERÁCLITO, Ayrson. Rotas e Transes: Áfricas, Jamaica, Bahia. In: PEDROSA, Adriano; TOLEDO, Tomás (Org.). Histórias Afro-atlânticas: [vol. 1] catálogo. São Paulo: MASP: Instituto Tomie Ohtake, 2018, pp. 186-189), a ironia da obra é disparadora para uma situação enfrentada por diversos outros grupos minoritários, constantemente ameaçados por uma mediocridade da hegemonia, com suas nostalgias e materializações nazifascistas – e como não pensar também na etiquetação sumária de comunista e sacrificável para qualquer um que contrarie a ordem do verme carrasco e de seus asseclas a favor da “família”, da “ordem” e de “deus”?

Sabido que o terror define os regime coloniais tardo-modernos (MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1 Edições, 2011), interpretação esta muito apropriada para o atual contexto brasileiro, podemos tomar a obra de Lauriano como upgrade/ rastro sobre a eternidade dos sofrimentos, a exemplo do pontuado por Walter Benjamin em diálogo com Nietzsche (BENJAMIN, Walter. O Tédio, Eterno Retorno. In: BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: UFMG, 2007, pp. 141-159). E seria esta mesma tônica que possibilita montagem entre o pensamento crítico de Walter Benjamin contra a continuidade dos crimes do Atlântico, crimes reencenados quando o terror, a morte e a liberdade são ligados por uma noção perene entre temporalidade e política (MBEMBE, 2011).

Para ajudar nestas prerrogativas, tomo uma segunda imagem, igualmente encontrada na exposição Histórias Afro-Atlânticas. Esta, para esclarecer meu lugar de escuta, é da professora e artista visual Rosana Paulino, cujo trabalho é claramente voltado para debater a sociedade brasileira. A imagem-situação da artista é marcada também por outra interlocução pessoal que tive: sua conferência de encerramento para o IX Fórum Bienal de Pesquisa em Arte, ocorrida na Casa das Artes, em Belém, dia 20/12/2019.

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A Permanência das Estruturas, de Rosana Paulino.

Foi nesta conferência, vale destacar, que a artista aprofundou dados sobre A Permanência das Estruturas, mosaico de signos para refletir sobre a continuidade do racismo estrutural e da violência naturalizada em nosso país. São estes signos, costurados não só pela linha física em evidência, que me fazem retomar o princípio mítico do Eterno Retorno como pressuposto interpretativo. São eles:

  • Planos e seções de um navio negreiro, de James Phillips;
  • Azulejos portugueses; fotografias de Auguste Stahl, encomendadas por um dos defensores do determinismo racial, Louis Agassiz;
  • Imagens de crânios para se aludir à prática da craniometria, abordagem do século XIX para avaliar as raças por meio da medição física de seus cérebros (ver também PEDROSA; SCHWARCZ; TOLEDO. Mapas e Margens. In: PEDROSA, Adriano; TOLEDO, Tomás (Org.). Histórias Afro-atlânticas: [vol. 1] catálogo. São Paulo: MASP: Instituto Tomie Ohtake, 2018, pp. 36-39).

A obra de Paulino revela possibilidade pensativa e material em torno da sobrevivência histórica, fatalidade mítica, transfiguração da violência em contemporâneos exercícios. Seu rastro assombra, de maneira análoga ao mito de Sísifo, o cotidiano da violência, desassistência e desinformação sobre a mortalidade do Covid-19 sobre corpos negros e desviantes, genocídio programado. E mais, projeta um mosaico de anacronias interrelacionadas, de ontem e de hoje, sobreviventes nos tempos dos que vivem com a “exatidão do desespero”.

A título de derivação: os tempos vividos na arte, ontem e hoje, são diversos, superpostos, daí uma possibilidade para se pensar no seu terreno complexo, com resistências e recuos. As diferentes matizes desses tempos  artísticos dialogam com o mundo a partir de distintas frentes. Quais agentes políticos, culturais e sociais se revelam a favor de uma agenda a contrapelo? Como manter a integridade, à revelia de uma estrutura que deseja a docilização e o silenciamento de vocabulários e corpos não-hegemônicos?

Cuidemos de cada um de nós. Podemos desprezar o absurdo, contrariedade aos desejos do Tártaro.

John Fletcher, Quarentena, 35º dia.

Notas sobre o Absurdo

Posted in Artes Visuais, Variações Pessoais by cafebeatnik on abril 9, 2020

O absurdo é o pecado sem Deus! (CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. São Paulo: Record, 2019).

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Durante uma breve saída ao supermercado para comprar novos mantimentos, pude experienciar  uma situação que não ousaria novamente, se pudesse: vi-me entre imagens de ruas nem tão desertas e de pessoas variadas nelas, algumas destas últimas com suas máscaras e semblantes desconfiados. Foi ali que me sobreveio, então, certa claustrofobia para com a própria máscara que tinha no rosto, asfixia com ar. Era como se meu inconsciente me transmitisse outra percepção para certas ideias de projetos necropolíticos, projetos a partir do desentendimento do isolamento.

Ao retornar ao meu apartamento, ainda pleno de desconforto, decidi que não tinha como escapar daquele estranhamento se não buscasse a portabilidade das palavras. Optei, não obstante, por explorar, mais uma vez, esta pista sobre o absurdo e seus aspectos constituintes, à revelia de um suor frio a me percorrer – sim, estava irredutível para revolver determinados signos nos domínios da inquietude. Encarar este conceito poderia me ajudar a considerar a  dificuldade da verdade e do preço palpável do absurdo em sua arremetida recalibrada.

A Recusa Contínua, um desses aspectos, e que não deve ser confundida com a noção de renúncia, mas um ato de dolorosa consciência sobre o que não se permite, logo ganharia minha atenção (CAMUS, 2019). Eu poderia, inclusive, pessoalizar esta nuance ao me ver adoecer pela política de extermínio em curso, hábito constante nos dias de barbárie vividos recentemente.

Estaria eu atento à complexidade da exceção e da náusea que há algum tempo se formava em meu cotidiano? E seria esta complexidade um fenômeno mais legível quando posto em diálogo com ações de recusas/ críticas materializadas num decurso do tempo recente, antes mesmo da chegada do COVID-19 em Belém? Que sensações entre tempos seriam estas, agora que havia algo de invisível e perverso para ser abraçado pelo carrasco?

Para aprofundar estas interrogações, tomo como evidência a escrita de um suplemento para o jornal O Liberal (Revista Troppo), dentro das dinâmicas relacionadas ao Arte Pará 2018. Aquela edição do evento teve a curadoria a cargo do amigo Paulo Herkenhoff, e a convite da amiga, curadora adjunta e pesquisadora Vânia Leal, explorei uma leitura sobre artistas e projetos visuais em  defesa das populações tradicionais – e o jornal se tornou um dos diversos canais possibilitados pela equipe do Salão para a extroversão de um posicionamento crítico pessoal meu, com uma base de dados apontada pelo CIMI (Conselho Indigenista Missionário) sobre a taxa de mortalidade e de violações de vidas indígenas.

No domingo, 28 de outubro de 2018, mais especificamente, quando saiu meu texto Arte Pará, Área Indígena, tivemos o segundo turno das eleições presidenciais que levariam o Brasil a uma posição mais interior à barbárie. Meu texto, publicado no domingo daquelas eleições, além de diálogo com obras dos artistas Xadalu, Armando Queiroz e Almires Martins, também visou a certo questionamento com os leitores sobre o que se desenhava com aquele projeto de governo  asfixiante, classista e necropolítico – isso em situações ainda alheias ao contexto das contaminações e de quando estes projetos abraçariam novas estratégias genocidas.

Qual a medida do diálogo de recusa que seria suficiente?

 

Ymá Nhandehetama, de Armando Queiroz, Almires Martins e Marcelo Rodrigues, vídeo-denúncia também apresentado na 31º Bienal de São Paulo/ 2014.

Na continuidade de minhas reflexões sobre Albert Camus (2019), a Insatisfação Consciente é o segundo aspecto para se propor algum tipo de estabilidade. Por ser compreendida como uma oposição à inquietude juvenil, algo encarado como um pressuposto, muitas vezes, temporário e passional, este componente de sobriedade se abre, por outro lado, como a nuance aplicável a um manter-se atento, crítico e resistente quanto às arbitrariedades que tingem, pendularmente, direitos, subjetividades e liberdades.

Seria esta, sem dúvida, a representação mítica de Sísifo no cotidiano das pessoas, de cada um de nós, a maioria refém de sistemas e limitações reais. Mas como compreender uma insatisfação consciente para com os direitos, quando a morte estava a espreita também pela subestimação como articulação política no Brasil? Seria este o caso de um ver-se obrigado a fazer algo, ainda que as circunstâncias fossem repletas de demandas por novas estruturas estruturantes?

As evidências nesta instância foram buscadas em outra análise publicada em O Liberal, mais especificamente no domingo de 11 de novembro de 2018, e cujo título foi Arte Pará, Área Democrática. Neste texto, mais especificamente, pude elaborar uma reflexão sobre a artista visual Katia Maciel, juntamente de seu vídeo Meio Cheio, Meio Vazio. Também inserida no desenho curatorial pungente e político do Arte Pará 2018, sua proposição artística possibilita uma discussão sobre a democracia como projeto sempre inconcluso, de maneira a sugerir a participação popular em defesa de ideais mais equitativos, a cada instante ameaçados por interesses de exclusão hegemônica.

Caberia ao vídeo de Maciel a prerrogativa de esclarecimento a partir de uma base da insatisfação necessária para a democracia, sempre inconclusa. Caberia ao vídeo de Maciel a prerrogativa de me fazer pensar na importância das agências governamentais, éticas e transparentes, para a efetivação democrática do país.

 

Meio cheio, Meio Vazio, de Katia Maciel.

O terceiro elemento constitutivo do absurdo, a título de finalização, já se dá na Ausência Total de Esperança – e aqui devemos destacar sua oposição ao mero desespero. Ainda que seja difícil de ser admitida para muitos (e para mim mesmo, tantas vezes), o que garante a particular posição de sentido do absurdo, esta predisposição chega a mim mais claramente pela dificuldade de se encontrar qualquer possibilidade de um progresso idealista aplicado ao mundo (CAMUS, 2019) – e, mais uma vez, o desconforto entre Erwin Panofsky e Walter Benjamin me retornava, agora como alegoria, de maneira a me sinalizar que determinadas perspectivas, ainda que não sustentáveis frente aos fatos históricos, requerem desconstruções eternamente inconclusas.

Sua provisória releitura, adequada ao contexto deste terceiro elemento em questão, já assume conexão com outra análise publicada em O Liberal, agora no domingo de 23 de dezembro de 2018, véspera do Natal, cujo título foi Arte Pará, Área Histórica. Nesse terceiro caso mais específico, minha interlocução se deu com a artista Letícia Parente, cuja obra Marca Registrada também tinha sido participante do Arte Pará 2018.

 

Marca Registrada, de Letícia Parente.

Por ser metáfora capaz de revelar o processo de coisificação do indivíduo a partir de um novo sistema colonial, então americano e publicitário, cujas garras seduziriam por embalagens cada vez mais reluzentes, o vídeo de Letícia Parente é, ele mesmo, um dispositivo anacrônico de uma situação política ainda contemporânea ao Brasil. Realizado como crítica e resistência da artista aos anos da ditadura civil-militar brasileira, sua atualidade, mesmo neste ano de 2020, parece tornar evidente o caráter cíclico de ruínas a nos atingir há mais de 500 anos, como um cabo de guerra contra contextos de exercícios coloniais sempre à espreita.

Made in Brazil, pequena ironia sobre o neoimperialismo, é possibilidade de atualização a partir da política diplomática para com o Estado americano em períodos de Pandemia. E sua dinâmica sígnifica se torna revigorada, quando o atual executivo brasileiro é cego para com as medidas de proteção locais, já que estas prejudicam interesses econômicos. Trariam estas percepções sobre a necropolítica em curso uma ausência total de esperança sobre o diálogo entre diferentes?

Ainda que eu entenda os limites históricos das frágeis conexões com o pensamento absurdo, não tenho como também não salientar que cada um dos três vídeos aqui apontados, cada qual dentro de contextos geo-históricos particulares,  projetam uma atemporalidade em Camus (2019). Soam-me inequivocamente reloaded; trazem-me analogias para com os estados de arbitrariedades praticadas no cotidiano político brasileiro.

Por mais que medidas de saúde estejam sendo capitaneadas por certos governadores (torço o nariz para alguns), outros silêncios são inegáveis, silêncios muito perigosos (às vezes, silêncios barulhentos também ocorrem). Podemos nos manter determinados a lidar com a asfixia do poder sobre nossas realidades?

Precisamos dar continuidade ao ato de pensar, que é o “reaprender a ver, a ser atento, é dirigir a própria consciência, é fazer de cada ideia e de cada imagem, à maneira de Proust, um lugar privilegiado” (CAMUS, 2019).

John Fletcher, Quarentena, 24º dia.

Notas sobre o que não consigo traduzir

Posted in Literatura, Variações Pessoais by cafebeatnik on abril 6, 2020

Falo novamente sobre o medo. Tento explicar. Não consigo. Digo: está em mim. Secretado por mim. Vive uma vida paradoxal, ao mesmo tempo genial e celular. Está aqui. Sem linguagem para dizer-se. Mais de perto, é uma crueldade nua, muda, de mim para mim, alojada em minha cabeça, na masmorra mental. Estanque. Com aberturas para a razão, a plausibilidade, a clareza (DURAS, Marguerite. Emily L.. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988: 35).

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O último texto publicado, em 29/03/2020, tomou um rumo desolador, para compartilhar minha ciência. Não tenho intenção de querer alimentá-lo, pelo menos integralmente, pois também compreendo que a ansiedade, as notícias catastróficas na mídia e as taxas de mortalidade pelo COVID-19 nos levam para lugares cada vez mais difíceis de se lidar. Como forma de evitar este cadafalso particular, decido escrever por outras vias, escrever talvez para compreender essa necessidade constante de me resolver com minha própria imbecilidade, uma “imbecilidade necessária para começar a achar que é possível. Mas não é uma resposta” (DURAS, 1988: 40).

E visto que tenho sido atravessado por uma hospitalidade linguística com os textos de Marguerite Duras, certas analogias, nesse caso as com a autora, por exemplo, são algumas das que me satisfazem, de modo temporário, para viver neste estado de quarentena, vigília e apreensão, espécie de alinhamento sem adequação, frágil condição capaz de sustentar um rastro, construção metafórica e anacrônica de equivalências sem identidade.

Quando penso no hábito de escrever, inclusive destaco que este foi um hábito presente na minha jornada há bastante tempo. Lembro de quando elaborei meus primeiros artigos para jornais, textos sem importância, na maioria das vezes sobre livros que estava lendo ou filmes que tinha visto, isso lá no início dos anos 2000, a convite da editora e amiga Rubia Balieiro para a Folha do Amapá. Eu sempre penso, vale acrescentar, na varanda do jornal, pertencente a uma casa de moldes americanos, ventilada, em que todos os funcionários se encontravam para fumar um cigarro, trocar informações.

Outra inserção na escrita foi com meus blogs pessoais (tive um anterior, que encerrei, cuja largada se deu lá pelo ano de 1999). Eu tive certa compulsão até, já que não somente os escritores beatniks me inspiravam, como diversos poetas malditos, caso de Rimbaud, principalmente. Alguns desses arquivos eu tenho guardado, pois sinalizam diferentes maturidades na compreensão textual.

Posso acrescentar, ainda, para este resumo interrelacionado, os seriados zines que elaborava com meus amigos sobre cultura pop – se não me engano, o nome da publicação era Quarto Amarelo, nome advindo por conta do nosso QG, o qual funcionava na casa de uma querida amiga, Carolinne Assis, nossa editora off-Broadway. Acredito que mantivemos essas publicações por uns dois anos.

Certamente, escrever é um ato de tatear no escuro das palavras, conjugar imagens e tempos que permanecem, à revelia de um viver no presente. Quando transformo algo em palavras, já não sinto aquela asfixia de antes, imagino que meus demônios interiores me dão descanso, ao passo que se refastelam em seus jogos imundos de palavras não pensadas ou exteriorizadas por mim – mas isso cabe ao reino das fantasias deles. É quase a sensação análoga que tenho ao ler “Quando escrevo, não amo mais você” (DURAS, 1988: 19).

“Escrever é também não saber o que se faz, ser incapaz de julgá-lo, há certamente uma parcela disso no escritor, um clarão que cega. E depois há ainda o fato de que é um trabalho que toma muito tempo, que exige muitos esforços, isso também é um atrativo. É uma das raríssimas ocupações que permanecem interessantes” (DURAS, 1988: 41).

Seria o escrever um convite à partilha deste obscuro objeto do desejo? E o que me toma quando escrevo agora?

Bem, tenho somatizado, meu corpo reflete este estado de incerteza. Um desconforto no peito me lembra, a todo instante, de algo entre a projeção e a própria peste. Se não fosse minha companhia ao lado de Marguerite Duras, minha lucidez estaria ainda mais alquebrada. Enquanto o tempo passa, a espera lança suas artimanhas. Escrever na cilada pode ser um blefe?

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Simão do Deserto (1965), de Luis Buñuel

A título de interrogação pessoal e provisória: o confinamento pode levar aos quadrantes insones da fantasia? Ou muitos podem ser, neste momento, um arremedo de imagens advindas do universo de Luis Buñuel?

John Fletcher, Quarentena, 21º dia.

Anacronia, Rastro e o Eterno Retorno (III)

Posted in Artes Visuais, Variações Pessoais by cafebeatnik on março 29, 2020

A pulsação nas têmporas persiste. Esse latejar nas têmporas tem que parar. Sua morte está em mim. Palpita em minhas têmporas. Não podemos nos enganar. Deter a pulsação nas têmporas – deter o coração – acalmá-lo – nunca se acalmará sozinho, é preciso ajudá-lo. Deter a exorbitância da razão que foge, abandona a cabeça (DURAS, Marguerite. A Dor. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986: 11).

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Em meio às dolorosas memórias de Marguerite Duras (1986), memórias alocadas nas suas experiências durante a Segunda Guerra Mundial, tomamos ciência de outros tipos de espera e tempos: a autora, a qual era militante na Resistência e componente do Partido Comunista Francês, ansiava por notícias de seu marido, Robert L., prisioneiro em um campo de concentração nazista. Mesmo com o processo de reabertura de territórios ocupados pelos alemães, com a consequente libertação de vítimas sobreviventes aos horrores do Holocausto, um misto de ansiedade, desespero e paixão percorria a sua vigília sem notícias. Seu livro-mosaico resultante deste período é tomado hoje como portador de seus tremores, rastro equilibrista entre seus cacos de razão, fatos vividos e sua interpretação sobre (im)permanências.

Transpirado por esta montagem de tempos e traduções de um presente não-simétrico, retorno à escrita, cada vez mais fragilizada pelo avolumar-se da tragédia. Em quarentena, tenho como companhia o crescente número de vítimas do Covid-19, neste domingo, 29/03/2020: 31.412 mortes no mundo, tendo a Itália atingido o maior pico entre nações até o presente, com 10.023 mortos. A Espanha atinge uma taxa de mortalidade de 6.528 pessoas, ao passo que o Brasil, com 114 mortes, tem em São Paulo o epicentro de pacientes confirmados, atualmente um total de 1.406 indivíduos, dos 3.904 casos do território total brasileiro.

O que significam esses lutos que o espaço-tempo imputa em nós? Seria esta pandemia mais um exemplo da falta de sentido ou objetivo da existência, Eterno Retorno, hipótese incompleta e provisória sem um final? Ou seria ela o prenúncio de mudanças assombradas pela necessidade de “inventar novas estratégias de emancipação cognitiva e resistência e lançar novos processos antagônicos” (PRECIADO, Paul Beatriz. Aprendendo com o Vírus. Textura, 2020. Disponível em < https://medium.com/textura/aprendendo-com-o-v%C3%ADrus-1f8542d3ed78 > Acesso em 29/03/2020)?

Tomado por fantasmagorias reencenadas, receios e fragmentos, decido por dialogar com o próprio Paul Beatriz Preciado (2020), antes mesmo de propor outras analogias, todas inconstantes, a fim de não sucumbir à insônia dos atormentados.

Preciado (2020), filósofo e leitor de Foucault, traz um panorama de certos manejos imunológicos, os quais se estendem “à toda a população as formas dominantes de manejo biopolítico e necropolítico que já estavam trabalhando no território nacional”. É em suas análises que reitera que o século XIX viu as democracias liberais e patriarcais-coloniais européias construírem o ideal do indivíduo moderno (masculino, branco, heterossexual), signo atualizado que desembocou na maneira pela qual “a Alemanha nazista caracterizou parte de sua própria população (os judeus, mas também os ciganos, homossexuais, pessoas com deficiência) como corpos que ameaçavam a soberania da comunidade ariana”.

Contaminados por um “mundo que vive de si mesmo, em que seus excrementos são seu alimento” (NIETZSCHE apud BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: UFMG, 2007: 155), estes exercícios de poder e de necropolítica chegaram aos nossos dias, por meio de agendas neoliberais legitimadas, para agir sobre minorias racializadas e corpos desvalorizados politicamente – e aqui podemos pensar em como as ações de extermínio ordenadas por um verme brasileiro nomeado presidente, juntamente de sua cúpula rascista e alienante, tem se apoiado em uma valorização econômica que se sobrepõe à saúde pública, mesmo à beira do apocalipse.

Tomo, inclusive, as narrativas de Sísifo, em suas similitudes com os absurdos sofridos pelos desamparados, como possibilidade de analogia para nossos assombros e barbáries. Sísifo, conforme debatido por Albert Camus (O Mito de Sísifo. São Paulo: Record, 2019), traz uma série de tradições narrativas para compreendê-lo, sendo algumas delas baseadas na premissa de que ele era o mais sábio e prudente dos mortais, cuja leviandade para com os deuses – a revelação de seus segredos – lhe garantiu seu trabalho nos infernos. Não obstante, temos outras narrativas que informam que Sísifo, após acorrentar a morte, recebeu a ira de Hades, já que seu reino começou a ficar vazio. Este último enviou-lhe o deus da guerra, que libertou a Morte, condenando seu captor, Sísifo, a empurrar eternamente uma rocha até o alto de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso.

Poderíamos nos enxergar em Sísifo, atormentados só por começar a pensar/ questionar? Seríamos os novos penalizados, requisitados a pagar pelos caprichos dos que manipulam a epidemia para transformá-la em máscara cognitiva e armamento genocida? Quais serão os corpos vitimizados a partir desta agenda da tragédia transformada em oportunidade de barbárie no Século XXI?

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Viviany Beleboni, 19º Parada do orgulho LGBT de São Paulo, 2017.

Em meio a todas essas “quedas e irrupções que renunciam ao secular modelo histórico” (DIDI-HUBERMAN, 2019: 115), lembro-me, inclusive, da performance-denúncia de Viviany Beleboni, dentro da 19º Parada do orgulho LGBT de São Paulo, em 2017. Releitura crítica da narrativa cristã da crucificação, esta personagem-monumento transgênero estabeleceu, para mim, uma das representações mais emblemáticas de um país que registra uma morte por homofobia a cada 23 horas, se nos apoiarmos somente nos dados “oficiais”. Fazendo uso deslocado das palavras do próprio Camus (2019: 20), “o equilíbrio entre a evidência e o lirismo [de Beleboni] nos permite acender, ao mesmo tempo, à emoção e à clareza”.

Uma vez que o confinamento nos fornece tempos e dores para perceber a irrupção e o envolvimento, tempos e dores submetidas a normas administrativas, encerro nossos fragmentos de um domingo assombrado com Walter Benjamin:

“A essência do acontecimento mítico é o retorno. Nele está inscrita, como figura secreta, a inutilidade gravada na testa de alguns heróis do inferno (Tântalo, Sísifo ou as Danaides). Retomando o pensamento do eterno retorno no século XIX, Nietzsche assume o papel daquele em quem se consuma de novo a fatalidade mítica. (A eternidade das penas infernais talvez tenha privado a ideia antiga do eterno retorno de sua ponta mais terrível. A eternidade de um ciclo sideral é substituída pela eternidade dos sofrimentos)” (BENJAMIN, 2007: 159).

A título de interrogação pessoal e provisória: quando Preciado (2020) pontua que a construção da soberania política de nossa comunidade nos diz quais serão as formas de suas epidemias e enfrentamentos, podemos perceber, implicitamente, que os senhores dos Infernos sentirão orgulho dos milicianos, de tantos pastores e de tantos “empreendedores” entre nós? E quem assumirá, a cada dia, o papel daquele em quem se consuma de novo a fatalidade mítica?

Nota 01: texto diretamente instigado por meu querido Ernani Chaves.

John Fletcher, Quarentena, 13º dia.

Anacronia, Rastro e o Eterno Retorno (II)

Posted in Artes Visuais, Variações Pessoais by cafebeatnik on março 27, 2020

A margem sempre me dá um distanciamento. Eu sempre estive à margem das coisas, eu sempre fui um marginal (NUNES, Benedito. Entrevista concedida em 2006 ao projeto Caravana, programa Jornal Nacional, TV Globo. [2006]. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=BKIUcnIPYWw>. Acesso em: 27 mar. 2020).

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Antes mesmo de refletir sobre uma segunda operação de acercamento do tempo, operação esta que se enreda por meio do Rastro, julgo pertinente retomar o conflito entre Walter Benjamin e Erwin Panofsky, de modo a compreender qual modelo de iconologia tradicional se viu desmoronar, em alguma medida. Acrescento, não obstante, que o propósito da Iconologia mais ampla foi o de apresentar um estudo dos símbolos nas representações visuais, portanto de caráter interpretativo sobre os códigos de uma imagem.

Erwin Panoksky (Significado nas Artes Visuais. São Paulo: Perspectiva, 2011), referência ao apontar para uma Iconologia das formas simbólicas, partia de uma abordagem neokantiana, em busca de um tempo estilístico e de uma unidade de sentido. Contrário ao modelo de Benjamin (e de seus precursores dialéticos), o autor empregou um percurso metodológico de filiação ao espírito do tempo, compreensão de estabilidade de sujeitos e imagens, leia-se sem porosidades cronológicas, afeita a uma lógica de progresso histórico.

Walter Benjamin – vítima do nazismo alemão e das forças armadas espanholas -,  percebeu outro caminho que a Iconologia panofskiana não fez questão de estranhar. Criticou a noção de progresso histórico, da qual Panofsky era interlocutor, e enredou a de história a contrapelo, ao lado de narrativas silenciadas. Seu ponto de análise desvelou uma percepção desorientadora, em que o sujeito e as imagens poderiam ser compreendidas a partir de uma porosidade temporal, espaço-tempo da vertigem-turbilhão.

É neste debate entre escolhas interpretativas distintas, que a noção de Rastro, em Walter Benjamin, permite vias de se ir além de uma Iconologia estritamente eucrônica. Os rastros, entendidos como vestígios da história, apontavam para  os anacronismos na continuidade dos fatos ocorridos. Por meio de irrupções, imagens trariam detalhes capazes de nos fazer questionar a progressão unidirecional do passado, de maneira a destituir uma pretensão das hierarquias seculares. Ou, como bem pontua Georges Didi-Huberman (2019: 121), “as coisas que ‘tiveram seu tempo’ não pertencem simplesmente a um passado concluído, desaparecido: ‘elas se tornam receptáculos inesgotáveis de lembranças’, uma vez que se tornaram matéria a sobrevivências – a eficaz matéria do tempo passado”.

A partir desta base de análise, Walter Benjamin tornou porosa uma imagem do fotógrafo Karl Dauthendey, o qual registrou seu filho ao lado da própria noiva. Inicialmente percebido como um registro corriqueiro, as leituras de Benjamin deram continuidade para uma construção a contrapelo, em busca da “pequena centelha do acaso, do aqui e agora, com a qual a realidade chamuscou a imagem” (Pequena História da Fotografia. In: BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 2011: 94).

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Por entender que a fotografia revelaria um inconsciente ótico, assim como a psicanálise revelaria o inconsciente pulsional, Benjamin (2011) se atentaria ao olhar da esposa do filho de Dauthendey, visto este se fixar em algo distante, talvez catastrófico. Seria esta mesma mulher, cujos olhos perdidos no tempo foram fixados, que o filho do fotógrafo encontraria, com seus pulsos cortados, em seu quarto de Moscou. Com a devida distância dos fatos ocorridos, esta imagem nos olharia de uma aparição entre tempos?

Uma segunda imagem, a título de reflexão particular deste preceito Benjaminiano,  pode ser buscada com o artista baiano Ayrson Heráclito, Um Menino na Praia de Toubab Dialaw sinaliza o Infinito. Capturada na praia senegalesa citada no título da obra, seus rastros-vestígios corroboram para evidenciar, a partir de outra profundidade, o debate em torno do passado não concluído e da imagem receptora de reminiscências para o agora e o porvir.

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Registro da obra Um Menino na Praia de Toubab Dialaw sinaliza o Infinito, de Ayrson Heráclito. Este registro ocorreu no segundo semestre do ano de 2017, Espaço Cultural Casa das Onze Janelas, quando a obra participou do Arte Pará Ano 36.

A sobrevivência do outrora que me fica clara nesta obra se aproxima da pesquisa visual de Heráclito em torno de questões relacionadas ao trauma colonial, mais especificamente sobre a barbárie imputada em corpos negros, escravizados e deslocados das Áfricas, violentamente. Destacamos nesta fotografia o gesto de uma criança negra que atravessa tempos, continentes e mares. Ela parece saudar e lamentar ancestralidades violadas, com uma predisposição a conclamar a um lugar interatuante em relação às memórias dos que não devem ser esquecidos jamais.

Um Menino na Praia de Toubab Dialaw sinaliza o Infinito ilumina um rastro que, embora tido como localizado no tempo, se aproxima de nós cada vez que tomamos ciência da prática de extermínio vivida no presente contra as periferias e contra a presença negra (em contextos urbanos, quilombolas ou rurais). Subjetividades minadas e humanidades vítimas de desejos coloniais (sobrevivente em um desejo brasileiro e classista) de exclusão, desumanização e necropolítica (ver também MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1 Edições, 2011). Ao atentar que signos possuem suas materialidades em gestos, torna-se emergencial assumir uma postura memorial quanto ao passado do Atlântico Negro e das Áfricas, de maneira a agir por uma prática combativa quanto às ações genocidas de um verme nomeado presidente, juntamente de sua cúpula rascista e alienante.

Por meio deste debate em torno do trauma colonial podemos, inclusive, ganhar rede nos escritos do filósofo martinicano Frantz Fanon, cujo livro Pele Negra Mascaras Brancas (Bahia: EDUFBA, 2008) é um dos precursores do debate Pós-Colonial. Ao evidenciar o homem negro como vítima da civilização branca, escravo de uma imposição cultural, Fanon nos ressoa:

“É através de uma tentativa de retomada de si e de despojamento, é pela tensão permanente de sua liberdade que os homens podem criar as condições de existência ideais em um mundo humano.
Superioridade? Inferioridade?
Por que simplesmente não tentar sensibilizar o outro, sentir o outro, revelar-me outro?
Não conquistei minha liberdade justamente para edificar o mundo do Ti?
[…]
Ô meu corpo, faça sempre de mim um homem que questiona!” (FANON, 2008: 191).

A título de interrogação pessoal e provisória: imagens a contrapelo podem permitir uma aliança, ainda que por meio da montagem, entre Walter Benjamin e as denúncias dos crimes do Atlântico, fundantes deste país chamado Brasil?

John Fletcher, Quarentena, 11º dia.

3. Anacronia, Eterno Retorno e Rastro (I)

Posted in Artes Plásticas, Artes Visuais, Variações Pessoais by cafebeatnik on março 24, 2020

“Em vez de passar (vertreiben) o tempo, é preciso convidá-lo (einladen) para entrar. Passar o tempo ou matar, expulsar (austreiben) o tempo: o jogador. O tempo jorra-lhe dos poros.
Carregar-se (laden) de tempo como uma bateria armazena (lädt) energia: o flâneur.
Finalmente, o terceiro tipo: aquele que espera. Ele carrega-se (lädt) de tempo e o devolve sob uma outra forma – aquela da espera” (BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: UFMG, 2007: 148).

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Escrever por fragmentos pode facilitar o rearranjo de ideias e compreensões. Os fragmentos, passíveis de serem alinhados em um sentido correlacionado, dispersos nos tempos de quem os carrega (já que somos fenômenos parciais, impermanentes), assombram o observador, destituem-no de certo tédio. Nesse sentido, este terceiro texto é outra alternativa de narrativa fragmentária, implicitamente carregada de tempos e de contra-provas, correlacionada à minha vontade pessoal de traduzir e interpretar minhas ideias desencadeadas na e pela quarentena.

Nesse sentido, volto-me para abraçar três operações distintas sobre o tempo, as quais eu compreendo como estratégicas para se olhar um mundo novamente em indeterminação e em crise. São elas: o Anacronismo, o Eterno Retorno e o Rastro. Para tentar ser mais objetivo, irei trabalhá-las separadamente, antes de propor tensionamentos entre as mesmas.

A noção de Anacronismo tem, mais uma vez, retornado aos debates da História da Arte e da Filosofia. Com uma predisposição de questionar um modelo ainda estrutural de compreender imagens e atos criativos, crítica relacionada a uma concepção idealista de tempo, este conceito em questão é atravessado por nomes como os de Aby Warburg, Walter Benjamin, Ernani Chaves e Georges Didi-Huberman, para citar algumas de minhas referências.

Georges Didi-Huberman (Diante do Tempo: História da Arte e Anacronismo das Imagens. Belo Horizonte: UFMG, 2019), mais especificamente, defende que imagens são complexas, exuberantes e polifônicas. Por constituirem, elas mesmas, “uma extraordinária montagem de tempos heterogêneos formando anacronismos” (2019: 23), necessitam de análises sob o princípio da memória para sair em busca da tão difícil percepção dos diferenciais de tempo operando em cada imagem.

O autor, por conseguinte, traz uma interessante evidência interpretativa para se acercar desta defesa do Anacronismo. Recorre, portanto, a um afresco do pintor italiano Fra Angelico, Madonna das Sombras, localizado no Convento de São Marcos, em Florença, Itália (Figura 01 e 02).

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Figura 01. Fra Angelico, Madonna das Sombras (1440-1450), afresco no Convento de São Marcos, Florença, Itália.

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Figura 02. Fra Angelico, Madonna das Sombras (1440-1450), detalhe da base do afresco no Convento de São Marcos, Florença, Itália.

Segundo Didi-Huberman (2019), o exemplo com o afresco de Fra Angelico pode contribuir para disparar o desmoronamento da estabilidade pretendida pelo tempo idealista de uma iconologia tradicional, já que a obra é resultado de diversos tempos – tempos heterogêneos, estratificados, logo anacrônicos:

  1. A moldura em trompe-l’oeil refletiria o tempo albertiniano do século XV, período florentino do primeiro Renascimento;
  1. A noção rememorativa da cor, por outro lado, refletiria uma busca do pintor pelo princípio interpretativo colocado nos arquivos dominicanos dos séculos XIII e XIV (as chamadas exegeses da Escritura bíblica);
  1. O pano inferior do afresco constituiria outro tipo de interpretação mais antiga, sendo esta encontrada na biblioteca de São Marcos (Dênis, o Areopagita comentado por Alberto, o Grande, ou São Tomás de Aquino), bem como por uma tradição figural chegada à Itália vinda de Bizâncio (uso litúrgico das pedras semipreciosas ou multicores);
  1. Os falsos mármores refletiriam uma influência do século XIII advinda do próprio pintor Giotto (a capela de Scrovegni é uma clara referência).

 

Esta análise do autor sobre o afresco em questão reforça determinadas frentes para a leitura da imagem, todas ao mesmo tempo, o que lhe confere um efeito de sobredeterminação, artes da memória no ato criador de qualquer artista/ propositor. A origem plural da Madonna das Sombras, desse modo, nos ajuda a compreender uma pluralidade de fatores heterogêneos que orbitaram o artista, para além de um preceito em torno do espírito do tempo da obra.

À guisa de estímulo para leituras de outras obras que estão presentes em nosso acesso, Didi-Huberman (2019) reitera que é preciso decupar a montagem das diferenças de toda e qualquer imagem, de maneira a não falhar completamente em relação ao sentido do gesto criador de cada artista.

Uma curiosidade última sobre este afresco: as próprias manchas brancas, as quais “constelam a parede do corredor como o faziam, segundo dizem, as gotas do leite da Virgem sobre a parede da gruta da Natividade” (DIDI-HUBERMAN, 2012: 24), podem fazer pensar que o Abstracionismo era praticado antes mesmo deste exercício ganhar força e nomeação a partir do Modernismo (com suas pistas no Romantismo, Impressionismo e Pós-mpressionismo). O afresco de Fra Angelico, por exigir uma vista sob o “ângulo de sua memória, de suas manipulações do tempo” (DIDI-HUBERMAN, 2012: 26), pode nos ajudar a questionar determinadas narrativas da História da Arte, extremamente rígidas e pouco afeitas à criatividade.

 

Nota 03: imagens são, cada uma em sua especificidade, um reflexo dos tempos disponíveis e estratificáveis em cada momento das sociedades. Os tempos estratificados de uma imagem seguiriam uma proposta elencada por Walter Benjamin em torno do espelhamento difuso das experiências e lacunas, “do momento e do lugar que os destinos nos designam na série de suas metamorfoses” (BLANQUI apud BENJAMIN, 2007: 154).

 

Quarentena, 7º dia.

2. Traduções e certas analogias (ou entre o Interpretar e o Traduzir)

Posted in Literatura, Variações Pessoais by cafebeatnik on março 23, 2020

A percepção de um objeto custa

exatamente a perda do objeto –

a percepção é em si mesma um ganho

correspondente ao seu preço…

(Emily Dickinson).

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Um ponto de debate que julgo interessante como segunda interlocução para a interpretação vem do ato de traduzir. Tomando por base Paul Ricouer e seu pequeno livro Sobre a Tradução (Belo Horizonte: UFMG, 2012), destaco uma série de questionamentos pertinentes para este projeto, já que há um amplo espectro polissêmico e filosófico, orbitado na figura do tradutor.

Um primeiro problema mais visível reside no fato do investigador tomar, muitas vezes, por uma necessidade e por um desafio questionável da tradução palavra por palavra, isso para além do próprio aspecto linguístico. Há um questionamento em curso deste princípio, já que um equivalente fixo entre línguas e linguagens distintas perde noções contextuais e culturais. Este é um estruturalismo difícil de ser aplicável a um mundo forjado pelo contato e pela diferença.

De acordo com o próprio Ricoeur (2012: 25), signos são “condensações de textualidade longa, na qual contextos inteiros se refletem, para nada dizer dos fenômenos de intertextualidade dissimulados na própria grafia da palavra”. Já penso, de antemão, que encontramos uma lógica possivelmente anacrônica nos signos a partir do autor, evidência esta eficiente para delinear analogias com as figuras de Walter Benjamin e de Georges Didi-Huberman, onde o espectro da criação da imagem reflete este caráter multitemporal.

A própria Intertextualidade, ainda de acordo com Ricoeur (2012), pode implicar uma possibilidade de retomada, de transformação e de refutação de empregos anteriores empregados por tradições diversas. Considerando o texto clássico, temos a mudança de intenções. Aplicando à dinâmica social como signo, não deixo de pensar na ressignificação de atos sociais, como foi o caso do bater panelas no Brasil, outrora evidência classista, atualmente possibilidade adequada a contextos de quarentena e de hackeamento da faceta hegemônica.

O desafio de um tradutor, que também traz uma faceta de intérprete, implica, para além de não refutar que os campos semânticos não se superpõem, perceber como as sintaxes não são igualmente equivalentes. Seria bem o caso de quando Ricoeur (2012) nos informa que as formas de construção das frases podem veicular heranças culturais muito distantes. Sendo assim, “o que dizer das conotações mudas que sobrecarregam as denotações mais precisas do vocabulário de origem e flutuam de certo modo entre os signos, as frases, as sequências curtas ou longas?” (RICOEUR, 2012: 25).

Em face, portanto, à impossibilidade da tradução perfeita, Ricoeur (2012) nos aponta viver o luto da não correspondência, mas também o potencial da hospitalidade linguística, espécie de alinhamento sem adequação, frágil condição capaz de sustentar uma proximidade com os textos sobre o interpretar, de Clifford Geertz. Interpretar não seria também uma construção metafórica de equivalências sem identidade?

 

Nota 02: como traduzir e interpretar a sensação e o tempo de uma espera, espera intercalada com o horror? De que servem imagens-textos-metáforas quando muitos vivem em uma vulnerabilidade como projeto de governo no Brasil?

 

Quarentena, 5º dia.

1. Observação e Interpretação

Posted in Ensaios, Literatura, Variações Pessoais by cafebeatnik on março 22, 2020

Só o texto é o portador ilimitado de imagens (DURAS, M. O Caminhão. Rio de Janeiro: Record, 1990: 58).

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Este texto surge de uma necessidade de escrita em tempos de quarentena. A proposta é a de manter uma escrita a partir de fragmentos e de conexões pela montagem de autores e teorias, uma vez que a tomo como alternativa pessoal para refletir sobre a espera, o horror e a ansiedade.

Com esse mote em mente, convoco um trecho da escritora franco-vietnamita Marguerite Duras, expoente da literatura feminina do século XX, natural de Saigon, antiga Indochina Francesa, cuja escrita propõe sobriedade pelas palavras. Duras, intelectual participante do fenômeno do Noveau Roman quando foi viver e estudar na França, também teve uma atuação como diretora de cinema, referência para o modo de interlocução entre texto e imagem:

“Fujo dessas pessoas que mal acabando de tomar conhecimento dessas coisas ou de vê-las já sabem pensar, e o que, e o que dizer, ou como concluir. É preciso evitar essas pessoas porque elas querem antes de mais nada perder aquele saber, afastá-lo de si passando a sua resolução imediata, é preciso fugir dessas pessoas que falam dos remédios e das causas, que falam da música na música, que, enquanto se toca uma Suíte para violoncelo, falam de Bach, que, enquanto se fala de Deus, falam de religião” (DURAS, M. O Verão de 80. Rio de Janeiro: Record, 1980: 44).

A seleção deste trecho me interessa pelo fato da escritora questionar a velocidade do interpretar, algo ainda mais corriqueiro em dias de instantaneidade de opiniões e de análises políticas. Talvez por compreender que nossas sociedades são complexas e contraditórias, sua suspeição quanto aos papéis que admitimos nas relações impermanentes foi constante.

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Fotografia tirada no outono de 2013, Paris, Cimetière de Montparnasse, onde atualmente se localiza minha grande dama Marguerite Duras.

 

Precisamos exaustivamente pensar, antes de escrever sobre um momento de signos profundos e transformadores. De certo modo, Duras me traz a figura de Clifford Geertz (2011), outra referência para o ato de lidar com essa vontade insaciável de ler situações e contextos. Foram algumas das análises deste antropólogo que sinalizam, ainda hoje, alguns dos caminhos e dilemas levantados por minhas narrativas interpretativas.

“O que o etnógrafo enfrenta, de fato, é uma multiplicidade de estruturas conceptuais complexas, muitas delas sobrepostas ou amarradas umas às outras, que são simultaneamente estranhas, irregulares e inexplícitas, e que tem que, de alguma forma, primeiro apreender e depois apresentar” (GEERTZ, C. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2011: 07).

Clifford Geertz bem pode ser questionado por uma série de debates e contra-debates no próprio terreno antropológico, entretanto, alguns de seus sinais metodológicos, anacrônicos por influência de Aby Warburg e apontados para o campo da criação textual, ainda me ajudam como forma de estabilizar o “dito” em um discurso.

Com essa intenção de reordenar coordenadas de um mundo experimentado, reordenamento atravessado por variáveis pessoais, devo acrescentar que toda análise é intrinsecamente incompleta, “cujas afirmativas mais marcantes são as que têm a base mais trêmula” (GEERTZ, 2011: 20). Não esqueçamos que a vocação da escrita, segundo o autor, é a de colocar à nossa disposição as respostas dos outros, o eu como outro, para, assim, “incluí-las no registro de consultas sobre o que o ser humano falou” (GEERTZ, 2011: 21).

Por ser fragilidade e impermanência, escrever, refletir, é também um exercício de se rever, de questionar pretensões, desmontar os tempos da escrita. Em meio à possibilidade microscópica de se tornar vertigem, textos encerram universos e prodigalizam o desejo da estabilidade.

 

Nota 01: Rodrigo Maroja Barata, escritor, pesquisador e amigo, é um dos meus grandes estimuladores intelectuais. Ele me vendeu sua significativa coleção de livros de Marguerite Duras, editados no Brasil e não mais disponíveis tão facilmente.

 

Quarentena, 6º dia.

Arte Pará Arquivos

Posted in Artes Visuais by cafebeatnik on março 18, 2020

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Para sistematizar e compartilhar algumas produções minhas em Revistas Acadêmicas, todas relacionadas ao Arte Pará, tema central de minha pesquisa de Doutorado.

1) Visualidades amazônicas e interculturais nos primeiros anos do Arte Pará (Ilha, Revista de Antropologia, 2017)

Resumo: o seguinte trabalho retoma uma discussão crítica e decolonial, dentro de uma leitura antropológica interpretativista, das primeiras edições do Salão Arte Pará (1982-1997), evento competitivo de artes visuais que ocorre na cidade de Belém, Estado do Pará. Desse modo, foi analisada a base conceitual inicial do evento e como se deu seu desenvolvimento e maturação, para refletir acerca do poder discursivo de circuitos expositivos de teor intercultural para uma região Amazônica. Buscamos conversar, principalmente, com escritos de Clifford Geertz e de Walter Mignolo, atravessados por outros focos de pensamentos advindos da orientação pós-colonial/decolonial, com ênfase em autores como, Inge Valencia, Adolfo Albán, Nestor Garcia Canclini, João de Jesus Paes Loureiro e Osmar Pinheiro Jr.

Palavras-chave: Artes visuais; Arte Pará; Amazônia

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2) Arte Pará: Etnografia e Interpretação em um salão de Artes Visuais na Amazônia (Horizontes Antropológicos, 2019)

Resumo: O presente trabalho traz relatos etnográficos sobre experiências com artistas, curadores, organizadores e técnicos na montagem do salão Arte Pará, entre os anos de 2012 a 2015, realizados na cidade de Belém. Parte integrante de uma pesquisa de doutorado, este recorte se baseia em premissas metodológicas sincrônicas e dialógicas, a partir de autores como Vincent Crapanzano e James Clifford, problematizados por aportes de pensamentos de Walter Mignolo, Eva Marxen, Beatriz Sarlo, Homi Bhabha e Johannes Fabian, dentre outros.

Palavras-chave: Artes visuais; Arte Pará; Amazônia; Etnografia

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John Fletcher, Quarentena, 1º dia.

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