Café Beatnik

Oscar 2015 – Primeira Parte

Posted in Cinema by cafebeatnik on fevereiro 9, 2015

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Queridos amigos, é chegada a temporada do Oscar. Mais uma vez, lembro que esta premiação é da indústria americana, portanto quase sempre conservadora e americanista. Não representa tudo o que entendo (e o que muitos entendem) por um cinema mais amplo, global e artístico (mesmo possuindo grandes nomes e grandes obras). Contudo, pelo simples fato de ser amplamente televisionada, massificada, não podemos deixar de comentar alguns títulos desta ocasião.

Este ano, vamos tentar ser mais rápidos em nossos comentários. Portanto, buscamos uma experiência de comentários-críticas-drops sobre o que há de relevante para nós neste território (e sem muitos spoilers, claro, já que a ideia é falar de aspectos mais conceituais, estilísticos). Se quiser conferir a lista completa dos indicados, acesse: http://omelete.uol.com.br/filmes/noticia/oscar-2015-conheca-os-indicados/

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01 – Boyhood, de Richard Linklater: o provável ganhador de Melhor Filme e Direção é uma ótima surpresa. Distante do espetáculo hollywoodiano de sempre, portanto atrelado mais a uma narrativa intimista, sem cunhos didáticos ou catárticos, este longa da cena independente americana (com 03 horas que passam velozmente) tem atuações memoráveis de Ellar Coltrane, o garoto protagonista, que é acompanhado pelo diretor durante 12 anos, literalmente e ficcionalmente, de sua vida; Patricia Arquette (provável ganhadora de Melhor Atriz Coadjuvante), sua mãe frágil, cheia de inseguranças e dúvidas, e sem a falácia de que idade quer dizer menos chance de erros; Ethan Hawke, seu pai, mais sonhador e preso à uma juventude deslocada e ilusória; dentre outros.

A simples ideia de trabalhar o tempo de forma tão literal e não formal já é um suspiro de originalidade para nosso tão conhecido cinema (aplausos para a Edição memorável). Fora isso, o autor não nos submete a uma narrativa com rompantes climáticos, porém nos faz ver que no não-dito está o seu sublime, a sua verdadeira mensagem: o tempo passa, não percebemos claramente as fronteiras que separam nossos planos do ocorrido; de repente, a vida veio, foi, sem grandes aplausos, sem grandes modificações para a humanidade. O personagem é uma representação de nós, seres não especiais (paremos com o excesso de antropocentrismo iluminista, por favor), mas que estão em trânsito. A grande lição desta obra prima não é “aproveite o momento”, mas “o momento vai sempre consumir você, quer queira, quer não”. Triste quando perdemos, inclusive, a chance de pensarmos a respeito destas (in)certezas.

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02 – O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson: mais uma vez, Anderson entrega um longa sofisticado e de texto magistralmente/ poeticamente bem escrito. Com um elenco gigante de ótimos atores (Ralph Fiennes, Tony Revolori, F. Murray Abraham, Bill Murray, Mathieu Amalric, Adrien Brody, Owen Wilson, Tilda Swinton, Jason Schwartzman, Jude Law, Harvey Keitel, Willem Dafoe, Léa Seydoux, Edward Norton, dentre outros), esta obra trata da história de um concierge, no mais famoso hotel da fictícia república de Zubrowka, durante o período entre as duas grandes guerras.

Como todos sabem, o diretor é um amante/ reprodutor declarado do enquadramento perfeccionista de Stanley Kubrick. Todavia, sua galeria de personagens, situações peculiares, lirismos, deslocamentos e cenários tão bem pensados fazem deste produto uma experiência renovada para a estética do cinema americano (Roteiro, Figurino e Direção de Arte podem aqui encontrar seu ganhador). Tony Revolori ocupa o lugar de segundo ator principal, depois de Fiennes (injustiçado ao não ser indicado), uma posição muitas vezes dada ao maravilhoso, para mim, Jason Schwartzman, e surpreende.

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03 – Birdman, de Alejandro Gonzáles Iñárritu: a carreira americana do diretor mexicano não para de surpreender. Com sua mais nova obra, traz Michael Keaton à uma excelente atuação (provavelmente a que vai lhe render Melhor Ator); consegue reinventar o tema de super heróis (um filme em que ficção e “realidade” se mesclam dentro e fora da obra, pois, além de não sabermos se tudo não passa de uma obsessão do personagem com sua antiga vida de ator de filmes de super heróis, a própria história de Keaton também é colocada indiretamente em pauta – lembram de sua fama passageira com Batman, de Tim Burton?); homenageia cineastas como Brian De Palma, Scorsese e Elia Kazan; lida com um processo de teatro filmado; e apresenta uma edição espetacular, a qual faz o longa parecer não ter cortes, como se fosse um único plano sequência (sim, muitos planos sequências imensos estão lá, mas há edição também em outros casos).

Além do mais, trata de temas como mídia, especulação artística, espetacularização americana na TV e nas redes, excentricidade; com o universo oscilatório das (sub)celebridades (Edward Norton e Emma Stone estão excelentes) e estratégias, muitas vezes desesperadas, de se sentir especial. Não percam! A trilha sonora incidental é um pequeno e surpreendente prazer à parte (para mim, é um dos mais fortes concorrentes para as categorias sonoras, ao lado de Whiplash).

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04 – Whiplash, de Damien Chazelle: sem dúvida, a maior surpresa para mim este ano veio com o primeiro longa dirigido por Chazelle (sua não indicação ao prêmio de Direção é um indicativo do quão arbitrário é o Oscar, mesmo com os seus). Com um enredo permeado por atuações brilhantes de J.K Simmons (Melhor Ator Coadjuvante, caso a premiação seja coerente) e Miles Teller (um absurdo em não ser indicado), esta obra trata de uma relação de amor e ódio, dentro do território do jazz contemporâneo, e passa por questões como ética profissional, sujeição, sadismo, disciplina, catarse, jazz e homoafetividade velada.

Para muitos há uma reencenação de alguns dos embates psicológicos de Nascido para Matar, de Kubrick. Em todo caso, seja pela magistral edição e trilha, somos simplesmente, e no bom sentido, sequestrados pelos meandros do aprendizado de um baterista (Teller), quando sua paixão é colocada à prova por seu carrasco professor. Só posso dizer uma coisa: os solos gigantescos de bateria são hipnóticos, nos fazem vibrar com cada acorde; velocidade impressa por outro tipo de luta de gladiadores, só que nos palcos de hoje e com plateia.

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05 – Still Alice, de Richard Glatzer e Wash Westmoreland: e nossos últimos comentários do primeiro post sobre o Oscar vão para a obra que provavelmente renderá o prêmio de Melhor Atriz para Julianne Moore. A tradução do longa ficou Para Sempre Alice, o que eu já acho um grande erro (Ainda Alice seria mais correto e menos melodramático). Todavia, este filme trata, basicamente, dos horrores de tantos que enfrentam os males do Alzheimer, os quais tem suas carreiras, suas percepções, relações e idiossincrasias totalmente devastadas pelo esquecimento.

Com um elenco composto por uma surpreendente Kristen Stewart (mordi minha língua), Alec Baldwin, dentre outros, posso dizer, para mim, que o mais tocante do longa é a mensagem geral e o carisma despertado pelas duas atrizes que mencionei. Por outro lado, ele é acadêmico, óbvio, não chega a fazer um dramalhão (um ponto positivo), e trata o tema com muita seriedade e respeito. Faltou arte, inventividade, poesia, reinvenção. Moore está muito boa, mas ainda acho que sua atuação em Mapas para as Estrelas é mais sofisticada (não à toa, ganhou o Prêmio de Melhor Atriz em Cannes 2014 por seu mencionado trabalho). De coração, prefiro a performance da linda Marion Cotillard, pelo excelente longa dos irmãos Dardenne, Dois Dias Uma Noite.

****

Não quer esperar pelos filmes chegarem no cinema? Não espere! Todos os principais títulos estão disponíveis para download e legendados no site omelhordatelona.com (mas tente depois ver seus preferidos na tela grande, pois, sem dúvida, é uma experiência muito melhor, se não a correta).

Confira, opine, consuma cinema.

John.

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