Café Beatnik

Oscar 2015 – Terceira Parte

Posted in Cinema by cafebeatnik on fevereiro 21, 2015

estatueta_oscar

Estamos quase no fim de nossos comentários sobre o Oscar 2015, maior festa da indústria de massa americana (o que, portanto, não pode ser tomada como representativa do verdadeiro cinema). Desta vez, nossos comentários vão se direcionar para mais uma nova seleção de indicados, não necessariamente para o de Melhor Filme somente, mas tendo em conta aspectos para nós importantes.

 Vamos lá?
Leviathan-Poster

10 – Leviatã, de Andrey Zvyagintsev: indicado a Melhor Filme estrangeiro, e maior concorrente de Ida, também atrelado a esta mesma categoria, o longa metragem russo é o filme mais importante de todos os concorrentes ao Oscar. Mas em que sentido? Bem, artisticamente é inegável, ainda que Boyhood tenha sua excelência por apresentar um modo de filmar bastante peculiar. Entretanto, no que concerne ao seu discurso, a obra toca em feridas comuns a nossas sociedades capitalistas como nenhum outro filme dos que estão na premiação.

A história trata, basicamente, de um personagem chamado Kolya (Aleksey Serebryakov), casado com Lilya (Elena Lyadova), e que está sofrendo as agruras de ter sua casa posta à desapropriação para ações da prefeitura local. O tal do prefeito corrupto, Vadim Shelevyat (interpretado magistralmente por Roman Modyanov), faz uso de toda a máquina municipal (polícia, burocracia e jogos sujos e violentos) para minar as tentativas de Kolya. Este último, então, recorre a seu amigo e advogado Dmitriy Seleznyov (grande atuação de Vladimir Vdovichenkov) para ajudá-lo contra esta ação arbitrária.

Filmado em locações próximas à costa do Oceano Glacial Ártico, além de ser um título muito comentado na competição oficial de Cannes 2014, Leviatã, incrivelmente, nos é peculiar. Mostra, de forma sombria e sem ingenuidade, como o dinheiro tem falado mais alto, à revelia da justiça. E mais, com sua fotografia sofisticada, cria um paralelo oposto para fazer um relato denúncia sobre a relação de classes hegemônicas e suas opressões sobre classes operárias (e nem a igreja escapa de sua visão crítica e politizada). Excelente para nos fazer identificar e problematizar, em outra escala, nosso cotidiano e nossos direitos silenciados por uma violência que consumimos diária e, nem tanto, homeopaticamente.

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11 – Foxcatcher, de Bennet Miller: em seu terceiro longa metragem, Miller, o qual dirigiu anteriormente Capote e O Homem que Mudou o Jogo, parece escolher um novo drama ocorrido no mundo dos esportes. Como muitos sabem, este diretor apresenta um estilo de filmar bastante acadêmico e quase anêmico, coisa que não fez diferente nesta sua nova obra, baseada em fatos reais.

Seja como for, não podemos não mencionar as atuações impressionantes de Steve Carell (quem diria, sua performance interpretando John du Pont, um milionário mimado, de personalidade esquizóide e opressora, que resolve investir seu tempo e dinheiro em lutas greco-romanas, principalmente para levar seus esportistas às Olimpíadas de 1988, em Seoul, é arrebatadora), Channing Tatum (sim, ele mesmo, interpretando o lutador Mark Schultz, patrocinado e desvirtuado por du Pont), Mark Ruffalo (David Schultz, irmão e treinador de Mark), mais uma participação muito especial de Vanessa Redgrave (Jean du Pont, mãe de John, opressora, silenciosa e aristocrática em cada um de seus frames).

E qual o problema? Bem, o longa tem 129 min., média de tempo comum. Todavia, pelo menos para mim, este tempo parece se arrastar sofregamente por cada uma das sequências. Os diálogos não são memoráveis, mas somente algumas e outras situações dramáticas, ao passo que fotografia, montagem e trilha sonora, muito bem orquestradas, não criam um maior envolvimento, nem uma experiência que demonstre alguma paixão. O resultado, sisudo e frio, pode agradar mais a quem tem um interesse pelo esporte.

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12 – Grandes Olhos, de Tim Burton: há tempos que Burton estava devendo um longa menos afetado e mais sério quanto a suas habilidades de filmar. E este momento chegou. Grandes Olhos, talvez o maior injustiçado pelo Oscar, é um retorno criativo, sutil, ainda que um pouco acadêmico, ao cinema que lhe trouxe destaque, como é o caso do de Edward Mãos de Tesoura, Peixe Grande e de Ed Wood.

Finalmente de férias do caricatural Johnny Deep, este filme traz o talento combinado de Amy Adams (Margaret Keane) com Christoph Waltz (Walter Keane), para falar da carreira da artista interpretada por Adams, amplamente subjugada por seu marido e por uma sociedade machista nos EUA da década de 1950 e 1960.

Para os amantes da visualidade, há um território aqui excelente para se explorar questões como verdade, reprodutibilidade, discurso, ética e estética na arte. E para além de aspectos mais conceituais, há uma interessante alocação histórica no período em que Andy Warhol sacudiu os alicerces do mercado das galerias. Atenção, além do mais para os sutis, muitas vezes imperceptíveis e deliciosos easter eggs (ou as chamadas referências veladas nas obras).

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13 – American Sniper, de Clint Eastwood: muitos devem saber que Clint Eastwood é um republicano, membro do partido mais conservador e perigoso nos EUA. Todavia, não se esperava que suas crenças e forma de pensar políticas pudessem ficar tão escancaradas em uma obra de cunho fascista, imperialista, revoltante e alienante.

American Sniper, seu novo trabalho, concorre, na minha opinião, a pior filme da história americana. Nele, tudo o que há de mais doentio, preconceituoso e simplista invade a tela e faz concorrência a outros filmes seus acadêmicos e de péssima qualidade (casos como o de A Troca, A Conquista da Honra, Invictus, J. Edgar e Além da Vida). A ideia, por si só, de tratar do maior atirador de elite do exército americano e alçá-lo à categoria de herói para o resto do mundo é uma abominação. Este atirador, Chris Kyle, interpretado pelo bonachão Bradley Cooper é somente um indicativo de que: 1) a academia quer, a todo custo, colocar este atorzinho nos holofotes, mesmo com atuações no automático; 2) quer afirmar sua posição conservadora, americanóide e imperialista cultural.

A história se passa no Iraque, país devastado econômica e politicamente pelos EUA e por seus interesses financeiros sobre a indústria do Petróleo (cujos argumentos expressos na mídia, claro, eram outros). E mais, pinta o velho retrato de que todo muçulmano é terrorista, seja ele mulher, criança, homem ou idoso (o personagem humilha e mata todos estes tipos no filme, sem qualquer remorso, pois, como é dito nos textos proferidos, por exemplo, “os EUA representam o melhor país do mundo”; “matamos mulheres e crianças, por que elas matam soldados americanos, e não há nada mais importante no mundo que soldados americanos”;  “aqui no Iraque existe um mal que temos de curar”; “Iraquianos são todos uns selvagens”, dentre uma infinidade de outras pérolas).

Bem, eu acredito que devemos nos posicionar e mostrar estas feridas do cinema americano. Boicotá-lo, quando necessário. Temos, além do mais, de pensar criticamente e desmascarar para os outros estas mensagens/ entrelinhas que estão inseridas nestes espetáculos vazios, colonizadores e sem uma real perspectiva de história, ainda mais quando envolve países postos em situações dramáticas de apagamento social, cultural e político.

O tom generalista da película, amparada por uma produção impecável, com fotografia de altíssima qualidade, não pode cegar quem deseja pensar o cinema como ferramenta de discurso e de poder. Lembrem-se, muitos dos atuais terroristas, antes de mais nada, ganharam tal alcunha por serem contra os interesses capitalistas e extrativistas que são o toque de caixa do atual mercado “global”.

Até nosso último post, amigos.

John

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