Café Beatnik

Carta sobre a Exposição PANÓS

Posted in Artes Plásticas, Ensaios, Variações Pessoais by cafebeatnik on junho 2, 2018

Convite exposição Panós

Icoaraci, 02 de junho de 2018

Pai,

 

Eu bem sei que faz um tempo muito longo que não nos falamos. Todavia, resolvi quebrar o silêncio com esta carta sobre uma exposição, PANÓS, que está ocorrendo aqui na nossa conhecida Icoaraci, Casa do Artista, um espaço que, acredito, iria lhe agradar sobremaneira.

Tomo como ponto de partida a própria casa, habitação em que o íntimo, o público e o artístico se misturam aconchegantemente, repleta de sensibilidade. Suas paredes são, literalmente, tomadas por trabalhos de cima a baixo, tudo muito organizado, decorado com extremo carinho pelos seus artistas-proprietários e sonhadores, Werne Souza e Auda Piani. Há até um quintal fantástico, com bancos e cadeiras para se sentar, partilhar, aprender e conversar por horas a fio. É neste local no fundo da casa, por sinal, que podemos encontrar instrumentos para se trabalhar com diversas técnicas artísticas, caso de pincéis, cinzéis e outros utensílios que me escapam inclusive os nomes.

No que concerne à exposição, pai, digo-lhe que são oito artistas, todos amigos e amigas, os quais farão parte da mostra supracitada, que, aliás, tem este nome, por que todos trabalharam com este material. Alguns conheço há anos, desde que comecei a trabalhar com crítica de arte contemporânea paraense.

O primeiro com quem falei foi com o Werne Souza, o qual me apresentou suas obras, seus cadernos de artista sobre tecido. Sua pesquisa visual é muito variada, tocando a crítica social, a experimentação das formas e texturas, de maneira a chegar também, em certos casos, em narrativas mais poéticas e fragmentárias – tem um livro seu sobre uma menina com pássaros e bois que me falou tão profundamente. Senti uma certa melancolia enquanto folheava as páginas tomadas por tintas, figuras e solidão…

O Werne também foi extremamente solicito e não poupou energias para me mostrar o trabalho de alguns de seus amigos que não estavam lá na hora. Dentre eles, o primeiro que chamou minha atenção foi o da Marga Gondim, espécie de desenhos com números sobre tecidos. Descobri que havia uma relação tanto com a tragédia de Mariana (MG), quanto com a de Barcarena (PA), trazendo em seu rastro a denúncia contra a impunidade e o embate entre sujeitos com forças diametralmente opostas. As expressões de dor das figuras, a técnica meio que a emular a ideia de lama a nos engolir. Nossa, que forte, pareciam sudários! E acredite, ela está apenas começando sua carreira como artista!

Depois conversei ainda sobre as obras do Ed Piani. Alguns chamariam de quadros, mas como ele fez uso de materiais reciclados de embarcações para falar de nossa realidade dos rios, inventamos um nome meio difícil no meio das artes, assemblages, já que as obras são verdadeiros mosaicos de materiais encontrados e utilizados a apontar para uma estética fluvial. Vou lhe ser sincero que lembrei do senhor quando vi uma delas, espécie de bússola, instrumento útil para nós viajantes.

Rybas e Telma Saraiva, por outro lado, são dois artistas que vivenciaram a cena cultural de grande movimentação das artes visuais paraenses. Eles voltam, agora, nesta exposição, com trabalhos que revelam suas indignações para com nossa realidade social. Rybas  apresenta uma pintura sobre tecido para expressar seu pesar pelo genocídio de populações indígenas no nosso país, com ênfase no Pará, uma prática nefasta que tem ganhado mais força por conta desse capitalismo selvagem que engole tudo e todos. Ao passo que Telma traz uma instalação com um mosqueteiro, com seu nome assinado em letras que lembram os nomes das antigas tabernas de Icoaraci e ponto cardeal também. No interior da cápsula/ mosqueteiro, há um boneco feito de vários tecidos de blusas usadas. Além do fato de trazer um item que fez parte da minha infância, o mencionado mosqueteiro, o boneco sem rosto emite, por meio de um dispositivo de áudio, vozes variadas de homens, mulheres e crianças, vozes sem rosto que falam das suas fomes na sociedade. Não tinha como não esperar uma crítica às políticas públicas precárias daqui do Estado por parte da minha amiga. Ela tem essa habilidade de falar tanto e de forma tão simples para muitos. Sem dúvida, seria uma das obras mais estimadas pelo senhor.

A Lúcia Gomes, para não dizer que não falei das flores, está com um trabalho de teor relacional, já que somos convidados a participar doando aqueles paninhos que geralmente colocamos nas bocas das torneiras de nossas cozinhas. Após o recebimento desses panos, ela os preenche com mudas de plantas. Segundo seu roteiro poético, a ideia é a de semear um país onde não existam injustiças nem desigualdades. O senhor se lembra daquele ditado de que as ideias mais simples podem mudar o mundo de muitos? Acredito que esse poderia ser um bom caminho de começo de interpretação.

O Faeli Moraes também traz uma peça feita em parceria, só que neste caso com seus alunos. É um tecido onde se acham retalhos e mensagens sobre liberdade, respeito à diferença e sensibilidade partilhada. A figura de uma mulher negra a nos encarar nos alerta até para o fato de que os crimes cometidos no presente e no passado contra populações de matriz africana nunca serão esquecidos. A memória é a maior aliada para que lembremos, no futuro, de tudo que foi feito à base da violência, do preconceito e do poder. Não podemos nos esquecer jamais, afinal, Mariele também está presente neste momento de grande insegurança e medo.

O último artista com quem conversei foi o Cledyr Pinheiro. Sujeito simples, de risada afetuosa. Sua família mora no Nordeste brasileiro, território onde passamos boa parte de nossas vidas. A obra que o Cledyr está expondo é uma lona, com uma imagem da bandeira nacional ao centro, e seu entorno repleto de pegadas em tinta branca. Queria ele chamar a atenção para o nosso papel ativo e/ ou conivente ao pisotearmos o nosso próprio país? Ou será que ajudamos a pisotear ainda mais este continente desigual quando acatamos sem pensar o que é exposto pela televisão, aliada de grupos privilegiados e criminosos?

É, pai, teríamos tanto para conversar, para (re)conhecer um ao outro nessa precária impermanência que somos a nós mesmos. Veja só como uma única exposição, uma única casa para nos receber nos renderia horas e horas de conversas, todas instigadas por sua retórica que tem feito preciosa falta! Bem sei que a duração dessa nossa conversa não seria mais medida por relógios, uma vez que eles escapariam de nossas realidades intangíveis…

John Fletcher

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: