Café Beatnik

De Canção em Canção, de Terrence Malick

Posted in Cinema, Deuses do Cinema by cafebeatnik on agosto 15, 2017

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Para atender pedidos, mesmo em formato de drops, “De Canção em Canção”, recente lançamento de Terrence Malick, em cartaz no Cine Líbero Luxardo>>

Desde seu retorno em “Além da Linha Vermelha” (seguido pelos excelentes “O Novo Mundo”, “Árvore da Vida”, “Amor Pleno” e “Cavaleiro de Copas”), Malick permanece como alguém que merece ser escutado.

“Song to Song” mantém sua assinatura, genialidade, além da parceria com o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki (o trabalho deste é impecável neste título, pra variar). A narrativa, mesmo fragmentária, trata de algo relevante aos nossos dias: a tensão entre idealização (com seu teatro, suas vivências, espetáculo artificial e vazio) e vida real (a simplicidade e a experiência).

Fassbender, na história, é um produtor musical e se mostra como um buraco negro que engole quem está ao seu redor. É ao lado dele que gravitam personagens líricos, profundos e cheios de dilemas (Rooney Mara e Ryan Gosling, por exemplo, num par romântico de dar inveja ao superficial último filme do Chazelle).

Veja mais de uma vez esta obra sobre sonhos, frustrações, fracassos e redenções para melhor absorvê-la. Muita gente não gostou, pelo que vi, mas acredito, também, que muitos destes nem entenderam o propósito e a arquitetura do filme. Você só precisa de fôlego, pois o longa tem 2h10min de puro autoralismo, repleto de fragmentos textuais poéticos e filosóficos (próprios ao contexto dos personagens), e uma câmera que vaga sobre a trama e os personagens de maneira quase etérea.

De bônus você ainda terá participações memoráveis de John Lydon (Sex Pistols), Iggy Pop, Red Hot Chili Peppers e Patti Smith.

ps.: Bérénice Marlohe é, na minha opinião, olímpica.

John Fletcher

Melhores (?) Filmes do 1º Semestre 2017

Posted in Cinema by cafebeatnik on junho 13, 2017

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Melhores Filmes 1 Semestre 2017

01 – Na Vertical (Alain Guiraudie)
02 – O Ornitólogo (João Pedro Rodrigues)
03 – Moonlight (Barry Jenkins)
04 – Raw (Julia Ducournau)
05 – O Apartamento (Asghar Farhadi); Toni Erdmann (Maren Ade)
06 – Paterson (Jim Jarmusch); Frantz (François Ozon)
07 – Poesia sem Fim (Alejandro Jodorowsky)
08 – Fences (Denzel Washington); Animais Noturnos (Tom Ford)
09 – Personal Shopper (Olivier Assayas)
10 – I, Daniel Blake (Ken Loach)
11 – Jackie (Pablo Larraín)
12 – Viva (Paddy Breathnach); Eu não sou seu Negro (Raoul Peck)
13 – Manchester à Beira Mar (Kenneth Lonergan)
14 – Neruda (Pablo Larraín)
15 – A Tartaruga Vermelha (Michael Dubok de Wit)

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Diretor: Alain Guiraudie (Na Vertical); João Pedro Rodrigues (O Ornitólogo) e Barry Jenkins (Moonlight)
Ator: Shahab Hosseini (O Apartamento); Denzel Washington (Fences) e James McAvoy (Fragmentado, de M. Night Shyamalan)
Atriz: Viola Davis (Fences); Garance Marillier (Raw)
Ator Coadjuvante: Héctor Medina (Viva); Stephen Henderson (Fences); Jovan Adepo (Fences)
Atriz Coadjuvante: Marie Gruber (Frantz); Kristen Stewart (Personal Shopper)
Roteiro Original: O Apartamento (Asghar Farhadi); O Ornitólogo (João Pedro Rodrigues) e Na Vertical (Alain Guiraudie)
Roteiro Adaptado: Fences (Denzel Washington)
Fotografia: Moonlight
Direção de Arte: Paterson e Moonlight
Trilha Sonora: Jackie
Animação: A Tartaruga Vermelha (Michael Dubok de Wit)
Documentário: Eu não sou seu Negro (Raoul Peck)

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Categorias Especiais (mas nem sempre)

Rivothriller: Raw (Julia Ducournau); O Lamento (Hong-Jin Na)
Arteen: La La Land (Damien Chazelle)
SandyMovie: Hell or High Water (David Mackenzie)

Melhores Filmes de 2016

Posted in Cinema by cafebeatnik on dezembro 6, 2016

Depois de um ano sem maiores informações cinematográficas (ano atribulado, difícil para se organizar os arquivos referentes em um único post), chegou o momento de compartilhar as listas com os Melhores Filmes do Ano

.

Para termos de organização, dividimos os títulos escolhidos em três etapas: Melhores do 1º Semestre, Melhores do 2º Semestre e Balanço Geral com os Melhores de 2016. Esta foi uma alternativa para dar conta de uma quantidade expressiva de títulos, em muito amparada por uma programação excelente e contínua do Cine Líbero Luxardo, em Belém, Pará. Além destas mencionadas etapas, ainda colocamos uma relação pormenorizada em categorias dos participantes (direção, ator, atriz etc.).

Também não podemos não mencionar o fiasco que foi a cerimônia do Oscar de 2016, com obras completamente irrelevantes. Os amantes do cinema americano que me perdoem, mas, cada vez mais, é menos interessante prestigiar o que vem da indústria de Hollywood. Outro ponto desconcertante: filmes de super heróis e continuações que não acabam! É tanta bobagem repleta de piadinhas e efeitos especiais esquizofrênicos… Cuidado com sua saúde mental!

Nossos vizinhos latinos, por outro lado, nos trouxeram um ano surpreendente. Desde títulos que não couberam nesta lista – O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra; A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo -, até os aqui eleitos, pudemos ter certeza, mais uma vez, que os novos rumos do Cinema estão mais próximos do que muitos desejam imaginar.

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Melhores Filmes 1º Semestre de 2016

01 – O Filho de Saul (László Nemes)
02 – Cemitério do Esplendor (Apichatpong Weerasethakul)
03 – Meu Rei (Maiween)
04 – Dheepan (Jacques Audiard)
05 – As Confissões de Marnie (Hiromasa Yonebayashi)
06 – O Clube (Pablo Larraín); Sicário (Denis Villeneuve)
07 – A Bruxa (Robert Eggers)
08 – Agnus Dei (Anne Fontaine)
09 – Anomalisa (Charlie Kaufman)
10 – Hail, Caesar! (Joel & Ethan Cohen)

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Melhores Filmes 2º Semestre de 2016

01 – Aquarius (Kleber Mendonça Filho)
02 – Francofonia (Alexandr Sokurov); Cinema Novo (Erik Rocha)
03 – Elle (Paul Verhoeven); De Longe te Observo (Lorenzo Vigas)
04 – The Lobster (Yorgos Lanthimos); Taxi Teerã (Jafar Panahi)
05 – A Comunidade (Thomas Vinterberg); Café Society (Woody Allen)
06 – Julieta (Pedro Almodóvar)
07 – O Clã (Pablo Trapero)
08 – Louder than Bombs (Joachin Trier)
09 – The Handmaiden (Park Chan-Wook)
10 – As Montanhas se Separam (Jia Zangkhe); Incompreendida (Asia Argento)

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Balanço Geral Melhores Filmes de 2016

01 – Aquarius (Kleber Mendonça Filho)
02 – O Filho de Saul (László Nemes)
03 – Cemitério do Esplendor (Apichatpong Weerasethakul)
04 – Francofonia (Alexandr Sokurov); Cinema Novo (Erik Rocha)
05 – Taxi Teerã (Jafar Panahi)
06 – Meu Rei (Maiwen)
07 – Elle (Paul Verhoeven)
08 – De Longe te Observo (Lorenzo Vigas)
09 – The Lobster (Yorgos Lanthimos)
10 – Deephan (Jacques Audiard)

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Melhores por Categorias

1. Melhor Diretor – László Nemes (O Filho de Saul) e Kleber Mendonça Filho (Aquarius)
2. Melhor Ator – Alfredo Castro (De Longe te Observo)
3. Melhor Atriz – Emmanuelle Bercot (Mon Roi) e Sônia Braga (Aquarius)
4. Melhor Ator Coadjuvante – Irandhir Santos (Ausência)
5. Melhor Atriz Coadjuvante – Jennifer Jason Leigh (Os Oito Odiados)
6. Melhor Montagem – De Longe te Observo (Lorenzo Vigas) e Cinema Novo (Erik Rocha)
7. Melhor Direção de Arte – O Filho de Saul
8. Melhor Fotografia – O Filho de Saul (Mátyás Erdély) e Café Society (Vittorio Storaro)
9. Melhor Roteiro – Kleber Mendonça Filho (Aquarius) e The Lobster (Yorgos Lanthimos)
10. Melhores Efeitos Especiais – A Chegada (Denis Villeneuve)
11. Melhor Animação – As Confissões de Marnie (Hiromasa Yonebayashi)
12. Melhor Trilha Sonora – Aquarius (Gustavo Montenegro) e Amor Eterno (Ennio Morricone)
13. Melhor Documentário – Francofonia (Alexandr Sokurov) e Cinema Novo (Erik Rocha)

***

Só para lembrar: toda lista é incompleta. Esta é uma síntese do que foi possível assistir e gostar. Espero que gostem, compartilhem e comentem.

Melhores Filmes 1º Semestre 2016

Posted in Cinema by cafebeatnik on julho 12, 2016

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01 – O Filho de Saul (László Nemes)
02 – Cemitério de Esplendor (Apichatpong Weerasethakul)
03 – Meu Rei (Maiween)
04 – Dheepan (Jacques Audiard)
05 – As Confissões de Marnie (Hiromasa Yonebayashi)
06 – O Clube (Pablo Larraín); Sicário (Denis Villeneuve)
07 – A Bruxa (Robert Eggers)
08 – Agnus Dei (Anne Fontaine)
09 – Anomalisa (Charlie Kaufman)
10 – Hail, Caesar! (Joel & Ethan Cohen)

Oscar 2015 – Parte Final

Posted in Cinema by cafebeatnik on fevereiro 21, 2015

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E finalmente chegamos a um fim (?) dos drops para o Oscar 2015. Eu bem sei que muitos filmes ainda não estrearam em Belém, mais precisamente os mais interessantes. Todavia, há downloads, cinemas em outros Estados e até em outros países. Além do mais, por uma questão de tempo, os títulos aqui comentados chegarão, no final das contas, às locadoras. Só tentem ver o que mais chamar a atenção de cada um.

Depois de toda esta jornada com os indicados ao prêmio da indústria americana cinematográfica, não podemos dizer que a jornada não valeu a pena. Pudemos encontrar imagens novas, imagens velhas, imagens recicladas criativamente, discursos importantes (e muitos outros catastróficos), grandes atuações, trilhas sonoras surpreendentes e direções sofisticadas para que possamos perceber o que há de conquista e de retrocesso no evento mais mass-midiatizado da atualidade.

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14 – Ida, de Pawel Pawlikowski: o maior concorrente do russo Leviatã é esta pequena/ grande obra prima polonesa sobre os efeitos da Segunda Guerra Mundial. Oportuna para marcar e evidenciar os males desta catástrofe Ocidental a partir de um drama familiar, sua chegada também contribui como marcador cinematográfico  para os 70 anos da libertação do campo de concentração de Auschwitz, agora em 2015.

Anna (Agata Tzrebuchowska), às vésperas de se consagrar freira, em pleno ano de 1962, tem de visitar sua tia Wanda (Agata Kulesza), antes de aceitar seus votos sagrados. Descobre, nesta ocasião, sua linhagem judia e parte com Wanda em uma dolorosa jornada para desvendar a tragédia pela qual sua família passou na Polônia.

Com um roteiro extremamente denso e sombrio, como deveria de ser, a obra é intimista, amparada pelas grandes interpretações das atrizes principais e por uma fotografia de tirar o fôlego. Cada take é milimetricamente pensado em preto & branco e lembra o trabalho dos fotógrafos suecos Sven Nykvist e Gunnar Fischer, grandes parceiros de Ingmar Bergman. Quem se interessa por temas ligados à memória, Holocausto e diáspora judia, tem neste filme um grande discurso político e artístico.

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15 – Mr. Turner, de Mike Leigh: em minha humilde opinião, a nova obra do inglês (dos títulos já conhecidos Simplesmente Feliz, O Segredo de Vera Drake etc.) foi uma das maiores injustiças em termos de indicações (recebeu somente indicações técnicas, como fotografia, direção de arte, figurino e trilha sonora). Com esta cinebiografia do pintor inglês, consagrado romântico, William Turner, Leigh nos entrega um clássico instantâneo e nada acadêmico, algo difícil quando se trata de cinebios.

Timothy Spall, ganhador do Prêmio de Melhor Ator em Cannes 2014 por esta performance, é nada mais que soberbo. Pergunto: quem viu alguma coisa de relevante no insípido do Bradley Cooper que merecesse tirar Spall da corrida? Afinal, os distintos momentos da carreira do pintor são destrinchados com inteligência e corporalidade: temos aqui os dilemas de Turner com sua primeira esposa (a distinta atriz Ruth Sheen), sua relação com o pai (Paul Jesson, também inspirado), a mudança paulatina na sua forma de pintar e de pensar, as experiências de imersão nos temas de suas telas, a paixão pela transcendência como algo passível de ser captado pelo pincel, os conflitos de egos e o mise-en-scène nos Salões da Academia londrina, até uma relação de opressão silenciosa sobre sua criada Hannah Danby (Dorothy Atkinson) e seus dias com uma iluminada Marion Bailey (a qual vive Sophia Booth, sua última esposa).

A fotografia, como tinha de ser, magistralmente criada por Dick Pope, é pintura filmada. Ganhadora da mesma categoria em Cannes 2014, além de inúmeras outras premiações, se consagra como um elemento chave para entender a beleza e a atemporalidade da obra do pintor.

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16 – O Abutre, de Dan Gilroy: outra injustiça no prêmio da academia, desta vez com a estréia na direção de Gilroy, roteirista do conhecido Gigantes de Aço, dirigido por Shawn Levy, e do cult Dublê de Anjo, dirigido por Tarsem Singh.

Pode até ser que muitos não tiveram peito para lidar com uma obra tão sombria, cínica e crítica sobre nossos dias (ela, pelo menos, ganhou uma indicação em Melhor Roteiro Original), mas, para além desse detalhe, não deixa de ser relevante para evidenciarmos como reproduz um discurso que está posto pela mídia sensacionalista: o filme abre espaço produtivo para se problematizar espetáculos vazios, apoiados em vivências pobres e capitalizantes em torno da violência, da sexualidade e do consumo.

Jake Gyllenhaal vive Louis, simplesmente um memorável vilão para o cinema contemporâneo. Seu personagem, articulado em discursos de auto-ajuda e de superação, é um retrato assustador das falas zumbis de vários sobre perseverança e motivação retóricas. Empertigado em uma “carreira” de sair pelas ruas da cidade com uma câmera na mão, Louis, acompanhado por um rádio com a frequência da polícia, busca e grava imagens de acidentes e crimes para vender, depois, para os noticiários locais.

Acredito que O Urubu possui um relevante discurso crítico para repensarmos o que devemos consumir na televisão, tanto aberta quanto fechada. As audiências de programas como BBB e muito outros reality shows são feridas em nossos atos de buscar coisas que valham a pena pensar e comentar.

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17 – Garota exemplar, de David Fincher: pelo visto, este último post ficou com as injustiças do ano. Garota Exemplar já tinha passado nos cinemas, então muitos puderam conferi-lo. Uma pena que a nova obra do diretor americano, um surpreendente e sofisticado suspense, também ficasse legada ao grupo dos esnobados pelo Oscar 2015.

Rosamund Pike (Anne Dunne), indicada ao prêmio de Melhor Atriz, está estupenda. Ela vive a esposa de Nick Dunne (Ben Affleck), desaparecida logo no início da história, com uma delicadeza de camadas de cinismo e de personalidade assombrosas. O circo criado em torno do personagem de Affleck, com sua  condenação sumária pela imprensa, mesmo sem provas, é interessante para se problematizar o poder da mídia, a manipulação de discursos e a capitalização da tragédia alheia.

Este filme traz na trilha sonora, pela terceira vez, o trabalho de Trent Reznor com Atticus Ross (os mesmos ganharam o Oscar por esta categoria com A Rede Social). Sem dúvida, foi o repertório mais criativo e surpreendente do ano que passou. Uma pena que este trabalho minimal e sombrio não ganhou o reconhecimento que merecia.

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18 – Selma, de Ava DuVernay: também concorrente para a categoria de Melhor Filme, este longa, amplamente comentado e discutido por apresentar incoerências históricas, todas em função da escolha narrativa do roteiro, traz direção segura de DuVernay, cuja maior produção foi voltada para a televisão (este é seu terceiro longa, portanto, para o cinema). Além destas informações, podemos dizer que é uma obra acadêmica, mas feita com muita paixão e profunda dignidade.

Quanto às incoerências históricas: bem, esta é uma ficção, pautada em recriação. Sua intenção não é a de ser um roteiro todo cheio de minúcias para com a complexidade do passado. E mais, não desvalido esta decisão de direção e roteiro, ainda mais quando vejo que a mesma é feita em prol de um manifesto político, o qual trata de dignidade social, entendimento da diferença, sem incorrer em motivos implícitos para práticas de sujeição e colonialismo.

E todos estes elementos acima citados estão lá, mais uma vez, como podem reclamar uns e outros. A título destas reclamações últimas, posso responder dizendo que precisamos, anualmente (em termos de Oscar, para não generalizarem minha resposta), deste tipo de discurso para pensar que as sociedade ainda são, diariamente, minadas por preconceitos. Política é algo que se exerce no cotidiano e não a título do que seria interessante para a indústria (o tal do fictício esgotamento de temas pelo cinema não é nada mais do que retórica, pois tais “esgotamentos” não existem, ainda mais para a arte, para o ato de criar algo em que se acredita; além do mais, a arte teve sempre como pauta recriar, retroalimentar-se e elaborar novas fronteiras para o já conhecido).

A história de Selma se concentra no período em que Martin Luther King ganhou o Prêmio Nobel da Paz, com sua seguinte atuação política para obter o direito de votos para as populações negras (fato este negado até uma história recente). Como paralelo de fundo, temos os conflitos e as ações empreendidas por King e por uma crescente comunidade de ativistas para a famosa marcha a qual saiu de Selma, no Alabama, em 1965.

As atuações são muito fortes, com destaque para a brilhante e sensível criação de Tom Wilkinson (Presidente Lyndon B. Johnson); a apaixonada de David Oyelowo (Mr. King); e a participação especial e sempre muito digna e política de Oprah Winfrey (Anne Lee Cooper). A direção de arte do filme tem seus grandes momentos e a linda Canção Tema, Glory, de John Legend, Common e Lonnie Lynn, indicada nesta categoria, deve ser a vitoriosa da noite.

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Amigos, tivemos lacunas, pois não houve chance de ver as tão aguardadas obras Vício Inerente, de Paul Thomas Anderson; Relatos Selvagens, de Damián Szifron; Tangerines, de Zaza Urushadze; e Timbuktu, de Abderrahmane Sissako. Não sei quando elas vão chegar aos cinemas das locadoras nossas.

Também não comentei Interestelar, de Christopher Nolan, pois, ainda que tenha sido muito legal, apresentou irregularidades de roteiro (o tal do final família feliz, o amor é o que supera, com pacote de explicações fechadinho, submisso às ordens do mercado) e de trilha sonora. Fiquei satisfeito com suas indicações técnicas, mesmo sabendo que o excelente trabalho de Matthew McCounaghey poderia ter ganhado mais destaque.

John

Oscar 2015 – Terceira Parte

Posted in Cinema by cafebeatnik on fevereiro 21, 2015

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Estamos quase no fim de nossos comentários sobre o Oscar 2015, maior festa da indústria de massa americana (o que, portanto, não pode ser tomada como representativa do verdadeiro cinema). Desta vez, nossos comentários vão se direcionar para mais uma nova seleção de indicados, não necessariamente para o de Melhor Filme somente, mas tendo em conta aspectos para nós importantes.

 Vamos lá?
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10 – Leviatã, de Andrey Zvyagintsev: indicado a Melhor Filme estrangeiro, e maior concorrente de Ida, também atrelado a esta mesma categoria, o longa metragem russo é o filme mais importante de todos os concorrentes ao Oscar. Mas em que sentido? Bem, artisticamente é inegável, ainda que Boyhood tenha sua excelência por apresentar um modo de filmar bastante peculiar. Entretanto, no que concerne ao seu discurso, a obra toca em feridas comuns a nossas sociedades capitalistas como nenhum outro filme dos que estão na premiação.

A história trata, basicamente, de um personagem chamado Kolya (Aleksey Serebryakov), casado com Lilya (Elena Lyadova), e que está sofrendo as agruras de ter sua casa posta à desapropriação para ações da prefeitura local. O tal do prefeito corrupto, Vadim Shelevyat (interpretado magistralmente por Roman Modyanov), faz uso de toda a máquina municipal (polícia, burocracia e jogos sujos e violentos) para minar as tentativas de Kolya. Este último, então, recorre a seu amigo e advogado Dmitriy Seleznyov (grande atuação de Vladimir Vdovichenkov) para ajudá-lo contra esta ação arbitrária.

Filmado em locações próximas à costa do Oceano Glacial Ártico, além de ser um título muito comentado na competição oficial de Cannes 2014, Leviatã, incrivelmente, nos é peculiar. Mostra, de forma sombria e sem ingenuidade, como o dinheiro tem falado mais alto, à revelia da justiça. E mais, com sua fotografia sofisticada, cria um paralelo oposto para fazer um relato denúncia sobre a relação de classes hegemônicas e suas opressões sobre classes operárias (e nem a igreja escapa de sua visão crítica e politizada). Excelente para nos fazer identificar e problematizar, em outra escala, nosso cotidiano e nossos direitos silenciados por uma violência que consumimos diária e, nem tanto, homeopaticamente.

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11 – Foxcatcher, de Bennet Miller: em seu terceiro longa metragem, Miller, o qual dirigiu anteriormente Capote e O Homem que Mudou o Jogo, parece escolher um novo drama ocorrido no mundo dos esportes. Como muitos sabem, este diretor apresenta um estilo de filmar bastante acadêmico e quase anêmico, coisa que não fez diferente nesta sua nova obra, baseada em fatos reais.

Seja como for, não podemos não mencionar as atuações impressionantes de Steve Carell (quem diria, sua performance interpretando John du Pont, um milionário mimado, de personalidade esquizóide e opressora, que resolve investir seu tempo e dinheiro em lutas greco-romanas, principalmente para levar seus esportistas às Olimpíadas de 1988, em Seoul, é arrebatadora), Channing Tatum (sim, ele mesmo, interpretando o lutador Mark Schultz, patrocinado e desvirtuado por du Pont), Mark Ruffalo (David Schultz, irmão e treinador de Mark), mais uma participação muito especial de Vanessa Redgrave (Jean du Pont, mãe de John, opressora, silenciosa e aristocrática em cada um de seus frames).

E qual o problema? Bem, o longa tem 129 min., média de tempo comum. Todavia, pelo menos para mim, este tempo parece se arrastar sofregamente por cada uma das sequências. Os diálogos não são memoráveis, mas somente algumas e outras situações dramáticas, ao passo que fotografia, montagem e trilha sonora, muito bem orquestradas, não criam um maior envolvimento, nem uma experiência que demonstre alguma paixão. O resultado, sisudo e frio, pode agradar mais a quem tem um interesse pelo esporte.

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12 – Grandes Olhos, de Tim Burton: há tempos que Burton estava devendo um longa menos afetado e mais sério quanto a suas habilidades de filmar. E este momento chegou. Grandes Olhos, talvez o maior injustiçado pelo Oscar, é um retorno criativo, sutil, ainda que um pouco acadêmico, ao cinema que lhe trouxe destaque, como é o caso do de Edward Mãos de Tesoura, Peixe Grande e de Ed Wood.

Finalmente de férias do caricatural Johnny Deep, este filme traz o talento combinado de Amy Adams (Margaret Keane) com Christoph Waltz (Walter Keane), para falar da carreira da artista interpretada por Adams, amplamente subjugada por seu marido e por uma sociedade machista nos EUA da década de 1950 e 1960.

Para os amantes da visualidade, há um território aqui excelente para se explorar questões como verdade, reprodutibilidade, discurso, ética e estética na arte. E para além de aspectos mais conceituais, há uma interessante alocação histórica no período em que Andy Warhol sacudiu os alicerces do mercado das galerias. Atenção, além do mais para os sutis, muitas vezes imperceptíveis e deliciosos easter eggs (ou as chamadas referências veladas nas obras).

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13 – American Sniper, de Clint Eastwood: muitos devem saber que Clint Eastwood é um republicano, membro do partido mais conservador e perigoso nos EUA. Todavia, não se esperava que suas crenças e forma de pensar políticas pudessem ficar tão escancaradas em uma obra de cunho fascista, imperialista, revoltante e alienante.

American Sniper, seu novo trabalho, concorre, na minha opinião, a pior filme da história americana. Nele, tudo o que há de mais doentio, preconceituoso e simplista invade a tela e faz concorrência a outros filmes seus acadêmicos e de péssima qualidade (casos como o de A Troca, A Conquista da Honra, Invictus, J. Edgar e Além da Vida). A ideia, por si só, de tratar do maior atirador de elite do exército americano e alçá-lo à categoria de herói para o resto do mundo é uma abominação. Este atirador, Chris Kyle, interpretado pelo bonachão Bradley Cooper é somente um indicativo de que: 1) a academia quer, a todo custo, colocar este atorzinho nos holofotes, mesmo com atuações no automático; 2) quer afirmar sua posição conservadora, americanóide e imperialista cultural.

A história se passa no Iraque, país devastado econômica e politicamente pelos EUA e por seus interesses financeiros sobre a indústria do Petróleo (cujos argumentos expressos na mídia, claro, eram outros). E mais, pinta o velho retrato de que todo muçulmano é terrorista, seja ele mulher, criança, homem ou idoso (o personagem humilha e mata todos estes tipos no filme, sem qualquer remorso, pois, como é dito nos textos proferidos, por exemplo, “os EUA representam o melhor país do mundo”; “matamos mulheres e crianças, por que elas matam soldados americanos, e não há nada mais importante no mundo que soldados americanos”;  “aqui no Iraque existe um mal que temos de curar”; “Iraquianos são todos uns selvagens”, dentre uma infinidade de outras pérolas).

Bem, eu acredito que devemos nos posicionar e mostrar estas feridas do cinema americano. Boicotá-lo, quando necessário. Temos, além do mais, de pensar criticamente e desmascarar para os outros estas mensagens/ entrelinhas que estão inseridas nestes espetáculos vazios, colonizadores e sem uma real perspectiva de história, ainda mais quando envolve países postos em situações dramáticas de apagamento social, cultural e político.

O tom generalista da película, amparada por uma produção impecável, com fotografia de altíssima qualidade, não pode cegar quem deseja pensar o cinema como ferramenta de discurso e de poder. Lembrem-se, muitos dos atuais terroristas, antes de mais nada, ganharam tal alcunha por serem contra os interesses capitalistas e extrativistas que são o toque de caixa do atual mercado “global”.

Até nosso último post, amigos.

John

Oscar 2015 – Segunda Parte

Posted in Cinema by cafebeatnik on fevereiro 9, 2015

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Mais uma leva de filmes indicados está chegando aos cinemas. Para variar, uns muito interessantes, outros bastante irregulares. O Oscar, cerimônia bastante alienada em seu eixo quase sempre americano, não consegue não mostrar suas fragilidades com suas seleções.

 Em nosso segundo post sobre o Oscar 2015, vamos tratar de mais algumas destas obras, tentando marcar um olhar o mais equilibrado possível. Gostaríamos que outras cerimônias, já mais inclusivas, multiculturais, tivessem um poder semelhante de difusão (ou massificação). Como não há tal caso, voltemos para o que se tem e pensemos com perspectiva tais produtos. Comecemos?

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06 – O Jogo da Imitação, de Morten Tyldum:  este filme segue passos semelhantes ao do novo cinema inglês acadêmico (e aproximações com o formato de dirigir de Tom Hooper, de O Discurso do Rei são muito claras). Todavia, para além de questões técnicas formais (com destaque para a excelente trilha sonora de Alexander Desplat, também compositor e homem-máquina-de-produzir da excelente partitura de O Grande Hotel Budapeste e de Invencível – e lembro ainda hoje de A Hora mais Escura, outro trabalho seu marcante), o conteúdo denúncia é fenomenal.

 A história é simples: um grupo de descriptadores e matemáticos trabalham secretamente para desvendar um código alemão durante a Segunda Guerra Mundial. Benedict Cumberbatch está preciso (que delicada atuação a deste querido, mais conhecido por seu papel na série Sherlock). E Keira Knightley, como sempre encantadora, ajuda a marcar o tom de suspense e tensão psicológicos. Entretanto, este era um período de perseguição, prisão e castração química para todo e qualquer homossexual na Inglaterra. E como certas histórias não podem ser silenciadas, mas aguardam um momento distinto para serem recriadas/ contadas, o personagem de Cumba (o famoso matemático e criador do primeiro computador, Alan Turing) sofre na pele outro tipo de perseguição perpetrada não pelos nazistas (os “maiores” vilões da história da Segunda Guerra) contra os judeus, gays e outras minorias, mas pelo lado “bonzinho e sofredor” dos aliados. É terrível que uma série de outros atores sociais não tenham merecido lugar até uma história mais recente (e bora combinar, nem hoje ainda recebem neste mundinho ocidental).

Não sei se muitos vão conseguir sentir a mesma revolta com estas entre linhas do filme. De todo modo, pensem nisto. Como bem disse Nietzsche, somos todos um pouco de Cristo e de Anticristo (sem aportes religiosos, PFV, mas somente como metáfora discursiva mesmo). O transformador desta película crítica e política se comprovou ainda mais quando o seu elenco e a sua produção requereram, em nota oficial, um pedido de desculpas, da própria Rainha, para com os crimes perpetrados pelo seu país contra mais de 40 mil homossexuais na Inglaterra.

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07 – A Teoria de Tudo, de James Marsh: outro filme inglês, outra cinebio acadêmica. O que eu posso falar? Bem, Eddie Redmayne não interpreta Stephen Hawking, ele é Stephen Hawking. Sua performance é tão poderosa, e isso vindo de um ator jovem, que a sua própria esposa na história, interpretação da atriz também indicada ao Oscar Felicity Jones, é engolida. Cada momento do ator em tela é deliciosamente refrescante, bem pensado. Sua humanidade e fragilidade constroem uma das maiores interpretações masculinas do cinema. Desculpe-me o excelente Michael Keaton, mas fui arrebatado por este trabalho.

 Quanto a outros aspectos, acredito que não há necessidade maiores de falar sobre. O filme trata da vida do famoso físico na juventude, em alguns de seus estudos e na batalha feroz contra sua doença degenerativa.  Nesse sentido, um ponto interessante e revelado pela obra é a falta de reconhecimento que Hawking deu a sua esposa, já que esta abriu mão de sua vida para viver a de seu marido. A trilha sonora, por outro lado, ganhadora do Globo de Ouro, é a favorita para a cerimônia (e eu fico de coração dividido entre ela e a de Grande Hotel Budapeste).

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08 – Caminhos da Floresta, de Rob Marshall: aqui encontramos um filme bastante problemático. Marshall tem estabelecido uma carreira muito voltada à questão dos musicais (já ganhou o Oscar por Chicago, excelente filme, mais por conta de toda sua relação e realidade com a produção do magistral Bob Fosse; ao passo que, junto de Nine, traz outro filme do gênero irregular, para não dizer de péssima qualidade). E mais, este título se perde com um roteiro bagunçado, uma montagem confusa e, às vezes, acelerada, com cortes abruptos, e um elenco de personagens muito grande que, infelizmente, acaba sendo subaproveitado durante as enormes 02 horas de duração.

 Do que trata? É uma miscelânia de histórias infantis (Cinderela, João e o Pé de Feijão, Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel), com uma carismática Emily Blunt (para mim, ainda mais interessante que a sempre excelente Meryl Streep) e outros atores bastante desconfortáveis em seus papéis (Chris Pine, Anna Kendrick e Lilla Crawford são os mais fracos, sem falar na aparição incoveniente de Frances de La Tour). Por sinal, Streep recebeu sua 19 indicação ao Oscar e já é, inquestionável, um cânone/ ícone. As canções são diversas – umas legais, outras esquecíveis -, enquanto que determinadas piadas são bem espirituosas, sobressaindo-se em meio a uma obra cansativa e sem ritmo. E nem acho que o figurino, indicado ao Prêmio da Academia, seja lá destacável.

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08 – Invencível, de Angelina Jolie: Mrs. Jolie, realmente, caiu em descrédito comigo. Porque? Bem, este seu segundo longa na direção é um veículo feito para enganar marinheiro de primeira viagem, que não se toca no quanto determinadas mensagens perigosas podem ser distribuídas pela indústria de massa. E você acha esta informação ultrapassada? Então, meu amigo, você não somente não tem o mínimo de respeito meu, como eu lhe indico voltar ao banco da universidade para estudar mais geopolítica, cultura de massa ou antropologia mundial.

 Invencível, uma produção megalomaníaca e petulante, trouxe os irmãos Cohen no roteiro, um elenco gigantesco a lá Cecil B. DeMille (com atuações certas, concordo, principalmente a do protagonista Jack O’Conell), Alexander Desplat na trilha sonora, Roger Deakins na linda fotografia (diretor de fotografia de Onde os Fracos não tem Vez, Skyfall, Soldado Anônimo, Fargo, dentre outras obras excelentes)  e, como cereja no topo do bolo, Coldplay na canção tema (vamos combinar, esta bandinha pasteurizada deveria ter encerrado sua carreira após o seu segundo álbum – tenho uma verdadeira repulsa com o tom meloso e cafona do Chris Martin). E claro, isto é um resumo da produção sem fim que trabalhou no título (basta acessar o site do IMDB para conferir)

A história, a qual trata das desventuras de um soldado americano na Segunda Guerra, ex-medalhista olímpico, sobrevivente a uma queda de avião no pacífico, com consequente deriva ao mar, e mais um período de encarceramento em um campo de prisioneiros japonês, é um erro por completo. Primeiro, a trama é binarista ao extremo – japoneses são vilões irredutíveis e americanos sofrem, são boa gente, pacifistas, mas que coitados. Segundo, o filme leva a platéia a odiar todo e qualquer japonês que aparece na tela, criando uma justificativa implícita até para o uso das bombas nucleares. O simplismo do filme é tão grande que surpreende pelo seu alto teor imperialista e genocida. Mrs. Jolie, protetora dos oprimidos, a senhora mostrou sua face mais sombria.

Bem amigos, por enquanto é só. Até o próximo post.

John

Oscar 2015 – Primeira Parte

Posted in Cinema by cafebeatnik on fevereiro 9, 2015

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Queridos amigos, é chegada a temporada do Oscar. Mais uma vez, lembro que esta premiação é da indústria americana, portanto quase sempre conservadora e americanista. Não representa tudo o que entendo (e o que muitos entendem) por um cinema mais amplo, global e artístico (mesmo possuindo grandes nomes e grandes obras). Contudo, pelo simples fato de ser amplamente televisionada, massificada, não podemos deixar de comentar alguns títulos desta ocasião.

Este ano, vamos tentar ser mais rápidos em nossos comentários. Portanto, buscamos uma experiência de comentários-críticas-drops sobre o que há de relevante para nós neste território (e sem muitos spoilers, claro, já que a ideia é falar de aspectos mais conceituais, estilísticos). Se quiser conferir a lista completa dos indicados, acesse: http://omelete.uol.com.br/filmes/noticia/oscar-2015-conheca-os-indicados/

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01 – Boyhood, de Richard Linklater: o provável ganhador de Melhor Filme e Direção é uma ótima surpresa. Distante do espetáculo hollywoodiano de sempre, portanto atrelado mais a uma narrativa intimista, sem cunhos didáticos ou catárticos, este longa da cena independente americana (com 03 horas que passam velozmente) tem atuações memoráveis de Ellar Coltrane, o garoto protagonista, que é acompanhado pelo diretor durante 12 anos, literalmente e ficcionalmente, de sua vida; Patricia Arquette (provável ganhadora de Melhor Atriz Coadjuvante), sua mãe frágil, cheia de inseguranças e dúvidas, e sem a falácia de que idade quer dizer menos chance de erros; Ethan Hawke, seu pai, mais sonhador e preso à uma juventude deslocada e ilusória; dentre outros.

A simples ideia de trabalhar o tempo de forma tão literal e não formal já é um suspiro de originalidade para nosso tão conhecido cinema (aplausos para a Edição memorável). Fora isso, o autor não nos submete a uma narrativa com rompantes climáticos, porém nos faz ver que no não-dito está o seu sublime, a sua verdadeira mensagem: o tempo passa, não percebemos claramente as fronteiras que separam nossos planos do ocorrido; de repente, a vida veio, foi, sem grandes aplausos, sem grandes modificações para a humanidade. O personagem é uma representação de nós, seres não especiais (paremos com o excesso de antropocentrismo iluminista, por favor), mas que estão em trânsito. A grande lição desta obra prima não é “aproveite o momento”, mas “o momento vai sempre consumir você, quer queira, quer não”. Triste quando perdemos, inclusive, a chance de pensarmos a respeito destas (in)certezas.

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02 – O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson: mais uma vez, Anderson entrega um longa sofisticado e de texto magistralmente/ poeticamente bem escrito. Com um elenco gigante de ótimos atores (Ralph Fiennes, Tony Revolori, F. Murray Abraham, Bill Murray, Mathieu Amalric, Adrien Brody, Owen Wilson, Tilda Swinton, Jason Schwartzman, Jude Law, Harvey Keitel, Willem Dafoe, Léa Seydoux, Edward Norton, dentre outros), esta obra trata da história de um concierge, no mais famoso hotel da fictícia república de Zubrowka, durante o período entre as duas grandes guerras.

Como todos sabem, o diretor é um amante/ reprodutor declarado do enquadramento perfeccionista de Stanley Kubrick. Todavia, sua galeria de personagens, situações peculiares, lirismos, deslocamentos e cenários tão bem pensados fazem deste produto uma experiência renovada para a estética do cinema americano (Roteiro, Figurino e Direção de Arte podem aqui encontrar seu ganhador). Tony Revolori ocupa o lugar de segundo ator principal, depois de Fiennes (injustiçado ao não ser indicado), uma posição muitas vezes dada ao maravilhoso, para mim, Jason Schwartzman, e surpreende.

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03 – Birdman, de Alejandro Gonzáles Iñárritu: a carreira americana do diretor mexicano não para de surpreender. Com sua mais nova obra, traz Michael Keaton à uma excelente atuação (provavelmente a que vai lhe render Melhor Ator); consegue reinventar o tema de super heróis (um filme em que ficção e “realidade” se mesclam dentro e fora da obra, pois, além de não sabermos se tudo não passa de uma obsessão do personagem com sua antiga vida de ator de filmes de super heróis, a própria história de Keaton também é colocada indiretamente em pauta – lembram de sua fama passageira com Batman, de Tim Burton?); homenageia cineastas como Brian De Palma, Scorsese e Elia Kazan; lida com um processo de teatro filmado; e apresenta uma edição espetacular, a qual faz o longa parecer não ter cortes, como se fosse um único plano sequência (sim, muitos planos sequências imensos estão lá, mas há edição também em outros casos).

Além do mais, trata de temas como mídia, especulação artística, espetacularização americana na TV e nas redes, excentricidade; com o universo oscilatório das (sub)celebridades (Edward Norton e Emma Stone estão excelentes) e estratégias, muitas vezes desesperadas, de se sentir especial. Não percam! A trilha sonora incidental é um pequeno e surpreendente prazer à parte (para mim, é um dos mais fortes concorrentes para as categorias sonoras, ao lado de Whiplash).

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04 – Whiplash, de Damien Chazelle: sem dúvida, a maior surpresa para mim este ano veio com o primeiro longa dirigido por Chazelle (sua não indicação ao prêmio de Direção é um indicativo do quão arbitrário é o Oscar, mesmo com os seus). Com um enredo permeado por atuações brilhantes de J.K Simmons (Melhor Ator Coadjuvante, caso a premiação seja coerente) e Miles Teller (um absurdo em não ser indicado), esta obra trata de uma relação de amor e ódio, dentro do território do jazz contemporâneo, e passa por questões como ética profissional, sujeição, sadismo, disciplina, catarse, jazz e homoafetividade velada.

Para muitos há uma reencenação de alguns dos embates psicológicos de Nascido para Matar, de Kubrick. Em todo caso, seja pela magistral edição e trilha, somos simplesmente, e no bom sentido, sequestrados pelos meandros do aprendizado de um baterista (Teller), quando sua paixão é colocada à prova por seu carrasco professor. Só posso dizer uma coisa: os solos gigantescos de bateria são hipnóticos, nos fazem vibrar com cada acorde; velocidade impressa por outro tipo de luta de gladiadores, só que nos palcos de hoje e com plateia.

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05 – Still Alice, de Richard Glatzer e Wash Westmoreland: e nossos últimos comentários do primeiro post sobre o Oscar vão para a obra que provavelmente renderá o prêmio de Melhor Atriz para Julianne Moore. A tradução do longa ficou Para Sempre Alice, o que eu já acho um grande erro (Ainda Alice seria mais correto e menos melodramático). Todavia, este filme trata, basicamente, dos horrores de tantos que enfrentam os males do Alzheimer, os quais tem suas carreiras, suas percepções, relações e idiossincrasias totalmente devastadas pelo esquecimento.

Com um elenco composto por uma surpreendente Kristen Stewart (mordi minha língua), Alec Baldwin, dentre outros, posso dizer, para mim, que o mais tocante do longa é a mensagem geral e o carisma despertado pelas duas atrizes que mencionei. Por outro lado, ele é acadêmico, óbvio, não chega a fazer um dramalhão (um ponto positivo), e trata o tema com muita seriedade e respeito. Faltou arte, inventividade, poesia, reinvenção. Moore está muito boa, mas ainda acho que sua atuação em Mapas para as Estrelas é mais sofisticada (não à toa, ganhou o Prêmio de Melhor Atriz em Cannes 2014 por seu mencionado trabalho). De coração, prefiro a performance da linda Marion Cotillard, pelo excelente longa dos irmãos Dardenne, Dois Dias Uma Noite.

****

Não quer esperar pelos filmes chegarem no cinema? Não espere! Todos os principais títulos estão disponíveis para download e legendados no site omelhordatelona.com (mas tente depois ver seus preferidos na tela grande, pois, sem dúvida, é uma experiência muito melhor, se não a correta).

Confira, opine, consuma cinema.

John.

Balanço do Semestre: Alguns dos Melhores Filmes 1º Semestre 2014

Posted in Cinema by cafebeatnik on dezembro 15, 2014

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Não sei quanto a vocês, mas este primeiro semestre de 2014 passou de maneira tão veloz e cheia de produções interessantes, que nós do Novas Medias não sentimos o tempo passar, bem como vimos a necessidade de uma lista mais inclusiva para os nossos filmes mais interessantes deste primeiro semestre de 2014.

Devemos considerar, aliás, que optamos por trazer, novamente, a obra prima La Grande Bellezza, de Paolo Sorrentino, para a presente lista (ele já apareceu na do ano passado). Este longa estreou neste semestre em Belém e causou uma recepção mais do que positiva. É um grande ensaio sobre Roma, sobre o processo de envelhecimento e suas relações contraditórias com o viver no mundo contemporâneo, sobre nosso querido maestro Federico Fellini; enfim, sobre todas essas pequenas coisas, como dizia Jorge Luis Borges, as quais tem uma permanência no fugaz.

Junto do filme de Sorrentino, no primeiro lugar, igualmente colocamos o político Azul é a cor mais Quente, de Abdellatif Kechiche, ganhador da Palma de Ouro em Cannes de 2013. Esta obra, a qual versa sobre mundos diferentes, mesmo dentro de um universo que muitos consideram único (universo de grupos femininos homoafetivos), chegou em um contexto geopolítico e global conflituoso e tenso – e sua presença, portanto, é um posicionamento contra esses mais novos horrores sofridos pelas populações gays. Deslocamento, aqui, pode ser uma das camadas para termos em mente.

Para fechar os nossos três filmes da primeira posição, não podemos deixar de lado a obra prima de Lars Von Trier, Ninfomaníaca (e aqui consideramos o Volume 1 e o Volume 2 como um filme só). Mais uma vez em parceria com a atriz Charlotte Gainsbourg, o longa do dinamarquês nos faz repensar alguns posicionamentos do cineasta apresentados no passado (caso das polêmicas envolvendo uma misoginia velada em seus filmes), de maneira a se colocar como um manifesto para a descolonização do ser e do espírito. Seu longa dois-em-um busca desconstruir a noção que temos de determinar o que é certo e errado para o outro, bem como nos faz perceber que cada sujeito, cada realidade, não precisa que estruturas de poder externas ditem as regras que melhor lhes convém.

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Três filmes incríveis, cada um a sua maneira diferente de ser.

 Outra coisa. Ainda devemos ressaltar alguns títulos dos apresentados na disputa pelo Oscar 2014. Surpresa! Fora as escorregadas comuns da academia, tivemos acesso a ótimos filmes de Martin Scorsese, Spike Jonze e Alexander Payne.
 E quem acha que o Brasil não produziu nada de relevante, enxergamos algo completamente diferente, vindo da atual produção pernambucana. Tatuagem, de Hilton Lacerda, mostra que há vida inteligente não limitada pelo império da Globo Filmes. Arte, política, corpo e gênero são alguns dos eixos para se apreciar esta mais nova preciosidade local cinematográfica.
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Melhores Filmes 1º Semestre 2014

01 – Ninfomaníaca (Lars Von Trier); Azul é a cor mais Quente (Abdellatif Kechiche); A Grande Beleza (Paolo Sorrentino)
02 – Tatuagem (Hilton Lacerda)
03 – Ela (Spike Jonze); O Lobo de Wall Street (Martin Scorsese)
04 – Nebraska (Alexander Payne); A Caça (Thomas Vinterberg)
05 – Blue Jasmine (Woody Allen); Dentro da Casa (François Ozon)
06 – Tom na Fazenda (Xavier Dolan)
07 – Jovem e Bela (François Ozon); 
08 – A Religiosa (Guillaume Nicloux); Rush (Ron Howard)
09 – Álbum de Família (John Wells); Doze Anos de Escravidão (Steve McQueen)
10 – Círculo de Fogo (Guillermo del Toro); Clube de Compra Dallas (Jean-Marc Vallée)

 

John Fletcher

Oscar 2014 – 3º Parte

Posted in Cinema by cafebeatnik on fevereiro 27, 2014

Eis nosso último post sobre o Oscar 2014. A cerimônia ocorre neste domingo, então não poderíamos deixar de comentar os filmes restantes para o grande prêmio da noite. De acordo com as cotações e premiações desta temporada, é possível que 12 Anos de Escravidão leve a estatueta de Melhor Filme, mas muito se sugere que Alfonso Cuarón, de Gravidade, leve a de Melhor Diretor. Quanto aos prêmios de atuação, temos: Melhor Ator para Matthew McConaughey, pelo Clube de Compras Dallas; Melhor Atriz para Cate Blanchett, por Blue Jasmine; Melhor Ator Coadjuvante para Jared Leto, pelo Clube de Compras Dallas; e Melhor Atriz Coadjuvante para Jennifer Lawrence, por Trapaça. Será?

 Bem, preparem suas apostas e vamos aos comentários.

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01 – 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen: muito tem se falado a respeito do novo longa de McQueen, diretor do ótimo Shame, com Michael Fassbender. E não é à toa. Mesmo filmado dentro de uma perspectiva meio academicista, sem grandes arroubos experimentais, cinematográficos, visto uma necessidade, por vezes, didática de melhor contar uma história emblemática, este longa surge com marcação política e declarada imprescindível para se entender uma história americana sem maquiagens, ainda recente, mas que durante muito tempo foi posta no subterrâneo.

 Chiwetel Ejiofor, o magnífico protagonista que já participou, dentre outros, de Filhos da Esperança (Cuarón), O Gângster (Riddley Scott), Coisas Belas e Sujas (Frears) e Melinda e Melinda (Woody Allen), vive Solomon Northup, homem livre e sequestrado para ser escravo no sul dos EUA. Ao lado dele, surgem os brilhantes personagens de Lupita Nyong’o, a escrava Patsey, e de Michael Fassbender, o violento dono de terras Edwin Epps, além de outros com menores destaques e sem o mesmo poder impressionante de atuação.

 Com um alto teor de violência que se paraleliza até com A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, 12 Anos de Escravidão já faz parte do currículo escolar americano para se entender, visualmente, parte de uma história de populações postas às margens da sociedade. Ah, por sinal, em meio a toda a tragédia do filme, é interessante detectar os princípios do jazz sendo criado pelos escravos durante as plantações nas lavouras e em condições totalmente sub-humanas.

 Ainda que ocorra uma problemática passagem de tempo (os 12 anos não ficam tão claros como deveriam) e uma inútil participação de Brad Pitt (canalha, num papel de uns 10 minutos, o qual lhe garantiu, por um misto de preconceito e gana de bilheteria, um dos cartazes principais do longa), encontramos um ótimo achado com a promissora Quvenzhané Wallis (filha de Solomon, mesma atriz que protagonizou muito bem o filme Indomável Sonhadora), além de sermos arrebatados por uma narrativa-denúncia que ocorre, mesmo nos dias de hoje, com nossas tão sensatas “classes dirigentes” e “pessoas de respeito”.

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02 – Clube de Compras Dallas, de Jean-Marc Vallé:pelo visto a premiação deste ano buscou ser mais relevante socialmente. Com esta história, a qual se passa no Noroeste dos EUA, durante o período de início da contaminação pelo vírus HIV (anos 1980), The Dallas Buyers Club traz um excelente personagem interpretado por Matthew McConaughey e impregna a cerimônia do Oscar de uma seriedade crítica nada fácil de se ver em solo da grande mídia, junto a 12 Anos de Escravidão.

 A película, a qual mostra um eletricista preconceituoso e amante de putadas no sentido mais extremo do termo, deflagra a ignorância e o machismo contra as comunidades homoafetivas, dentro de uma ótica de redenção trágica, quando o protagonista se vê amparado somente por aqueles os quais buscou crucificar. Sua jornada começa quando percebe na pele os insucessos do medicamento AZT, ainda em início de testes, e tem de enfrentar as burocracias do Governo Americano para conseguir outros componentes, em outros países e laboratórios, do conhecido coquetel para soropositivos (ele vira, ao lado de Leto, um mercador underground).

 O personagem do Jared Leto, por sinal, o transsexual Rayon, ilumina a tela. Ele é de uma delicadeza, bom humor e fragilidade tão sinceros, que não há como não achar que sua interpretação não existe, de fato, na vida do lado de cá da tela. Também conhecido por sua ótima atuação em Réquiem para um Sonho, de Darren Aronofsky, o ator faz nos perguntarmos: porque diabos ele continua com sua chata banda, 30 Seconds to Mars?

 Ok, há tropeços no filme, principalmente quanto ao início, muito mais ousado, cinematograficamente instingante, e o seu restante, já entregue para um outro modelo, sem as mesmas invencionices, bastante regular e didático na passagem do tempo e parecido com tantos outros títulos. Em todo caso, a mensagem é tão importante, certo? Vivemos um momento mundial tão trágico para tantos homens e mulheres gays, que não cabe só considerar os problemas superficiais de uma obra, antes de mais nada, humana e cheia de esperança.

Philomena

03 – Philomena, de Stephen Frears: e olha quem vem neste Oscar, o grande Frears, diretor dos clássicos Os Imorais, Alta Fidelidade, A Rainha, Coisas Belas e Sujas, Ligações Perigosas, Minha Adorável Lavanderia, dentro tantos outros. E vem muito bem, com uma obra austera, cheia de simpatia e nada previsível.

A história, baseada também em fatos reais, trata de Philomena, a impecável madame Judi Dench, a qual é ajudada pelo jornalista interpretado por Steve Coogan para saber o que ocorreu de um grande segredo guardado por mais de 50 anos. Bem, não vou falar muito, pois tudo pode incorrer no spoiler, mas este é, basicamente, o mote para outra película denúncia contra o ultraconservadorismo católico de meados do século XX e o ultraconservadorismo presente nos dias de hoje, agora contra outros tipos de comportamentos não aceitos socialmente.

Tudo é inesperado, sem parecer forçado. A interpretação de Dench é de uma classe única. Nos pegamos, inúmeras vezes, rindo nervosamente de situações ora trágicas, ora enternecedoras.

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04 – Nebraska, de Alexander Payne: por fim, para encerrar com chave de ouro os filmes indicados ao grande prêmio da academia, eis Nebraska, do diretor dos excelentes Os Descendentes, Sideways e Eleição.

 Com Bruce Dern, pai da Laura Dern e emblemático ator de filmes como Marnie e Trama Macabra, ambos de Alfred Hitchcock, esta atual obra, toda filmada em preto e branco, esteticamente muito refinada, conta a história de Woody Grant (Dern), o qual vai de Montana até Nebraska para solicitar seu prêmio de um milhão de dólares com a ajuda de seu filho (o personagem David Grant, vivido por Will Forte).

 É claro que este mote serve para uma comédia de hábitos do meio oeste americano, quando Woody já é alçado, por toda a comunidade de sua cidade, à categoria de milionário, sem ao menos ainda ter recebido seu dinheiro. Além do roteiro ágil, com diálogos deliciosos, devemos também chamar atenção para o personagem incrível da atriz June Squibb (Kate Grant, a matriarca da família).

  Nebraska é, possivelmente, ao lado de Her, o filme mais cinema de todos os indicados. Toda a sua construção converge para uma boa maneira de contar uma história, sem soar datada. É sempre um prazer muito grande ver quando estes longas mais autorais conseguem seu devido reconhecimento frente à opinião muitas vezes acadêmica e conservadora da academia.