Café Beatnik

Carta sobre a Exposição PANÓS

Posted in Artes Plásticas, Ensaios, Variações Pessoais by cafebeatnik on junho 2, 2018

Convite exposição Panós

Icoaraci, 02 de junho de 2018

Pai,

 

Eu bem sei que faz um tempo muito longo que não nos falamos. Todavia, resolvi quebrar o silêncio com esta carta sobre uma exposição, PANÓS, que está ocorrendo aqui na nossa conhecida Icoaraci, Casa do Artista, um espaço que, acredito, iria lhe agradar sobremaneira.

Tomo como ponto de partida a própria casa, habitação em que o íntimo, o público e o artístico se misturam aconchegantemente, repleta de sensibilidade. Suas paredes são, literalmente, tomadas por trabalhos de cima a baixo, tudo muito organizado, decorado com extremo carinho pelos seus artistas-proprietários e sonhadores, Werne Souza e Auda Piani. Há até um quintal fantástico, com bancos e cadeiras para se sentar, partilhar, aprender e conversar por horas a fio. É neste local no fundo da casa, por sinal, que podemos encontrar instrumentos para se trabalhar com diversas técnicas artísticas, caso de pincéis, cinzéis e outros utensílios que me escapam inclusive os nomes.

No que concerne à exposição, pai, digo-lhe que são oito artistas, todos amigos e amigas, os quais farão parte da mostra supracitada, que, aliás, tem este nome, por que todos trabalharam com este material. Alguns conheço há anos, desde que comecei a trabalhar com crítica de arte contemporânea paraense.

O primeiro com quem falei foi com o Werne Souza, o qual me apresentou suas obras, seus cadernos de artista sobre tecido. Sua pesquisa visual é muito variada, tocando a crítica social, a experimentação das formas e texturas, de maneira a chegar também, em certos casos, em narrativas mais poéticas e fragmentárias – tem um livro seu sobre uma menina com pássaros e bois que me falou tão profundamente. Senti uma certa melancolia enquanto folheava as páginas tomadas por tintas, figuras e solidão…

O Werne também foi extremamente solicito e não poupou energias para me mostrar o trabalho de alguns de seus amigos que não estavam lá na hora. Dentre eles, o primeiro que chamou minha atenção foi o da Marga Gondim, espécie de desenhos com números sobre tecidos. Descobri que havia uma relação tanto com a tragédia de Mariana (MG), quanto com a de Barcarena (PA), trazendo em seu rastro a denúncia contra a impunidade e o embate entre sujeitos com forças diametralmente opostas. As expressões de dor das figuras, a técnica meio que a emular a ideia de lama a nos engolir. Nossa, que forte, pareciam sudários! E acredite, ela está apenas começando sua carreira como artista!

Depois conversei ainda sobre as obras do Ed Piani. Alguns chamariam de quadros, mas como ele fez uso de materiais reciclados de embarcações para falar de nossa realidade dos rios, inventamos um nome meio difícil no meio das artes, assemblages, já que as obras são verdadeiros mosaicos de materiais encontrados e utilizados a apontar para uma estética fluvial. Vou lhe ser sincero que lembrei do senhor quando vi uma delas, espécie de bússola, instrumento útil para nós viajantes.

Rybas e Telma Saraiva, por outro lado, são dois artistas que vivenciaram a cena cultural de grande movimentação das artes visuais paraenses. Eles voltam, agora, nesta exposição, com trabalhos que revelam suas indignações para com nossa realidade social. Rybas  apresenta uma pintura sobre tecido para expressar seu pesar pelo genocídio de populações indígenas no nosso país, com ênfase no Pará, uma prática nefasta que tem ganhado mais força por conta desse capitalismo selvagem que engole tudo e todos. Ao passo que Telma traz uma instalação com um mosqueteiro, com seu nome assinado em letras que lembram os nomes das antigas tabernas de Icoaraci e ponto cardeal também. No interior da cápsula/ mosqueteiro, há um boneco feito de vários tecidos de blusas usadas. Além do fato de trazer um item que fez parte da minha infância, o mencionado mosqueteiro, o boneco sem rosto emite, por meio de um dispositivo de áudio, vozes variadas de homens, mulheres e crianças, vozes sem rosto que falam das suas fomes na sociedade. Não tinha como não esperar uma crítica às políticas públicas precárias daqui do Estado por parte da minha amiga. Ela tem essa habilidade de falar tanto e de forma tão simples para muitos. Sem dúvida, seria uma das obras mais estimadas pelo senhor.

A Lúcia Gomes, para não dizer que não falei das flores, está com um trabalho de teor relacional, já que somos convidados a participar doando aqueles paninhos que geralmente colocamos nas bocas das torneiras de nossas cozinhas. Após o recebimento desses panos, ela os preenche com mudas de plantas. Segundo seu roteiro poético, a ideia é a de semear um país onde não existam injustiças nem desigualdades. O senhor se lembra daquele ditado de que as ideias mais simples podem mudar o mundo de muitos? Acredito que esse poderia ser um bom caminho de começo de interpretação.

O Faeli Moraes também traz uma peça feita em parceria, só que neste caso com seus alunos. É um tecido onde se acham retalhos e mensagens sobre liberdade, respeito à diferença e sensibilidade partilhada. A figura de uma mulher negra a nos encarar nos alerta até para o fato de que os crimes cometidos no presente e no passado contra populações de matriz africana nunca serão esquecidos. A memória é a maior aliada para que lembremos, no futuro, de tudo que foi feito à base da violência, do preconceito e do poder. Não podemos nos esquecer jamais, afinal, Mariele também está presente neste momento de grande insegurança e medo.

O último artista com quem conversei foi o Cledyr Pinheiro. Sujeito simples, de risada afetuosa. Sua família mora no Nordeste brasileiro, território onde passamos boa parte de nossas vidas. A obra que o Cledyr está expondo é uma lona, com uma imagem da bandeira nacional ao centro, e seu entorno repleto de pegadas em tinta branca. Queria ele chamar a atenção para o nosso papel ativo e/ ou conivente ao pisotearmos o nosso próprio país? Ou será que ajudamos a pisotear ainda mais este continente desigual quando acatamos sem pensar o que é exposto pela televisão, aliada de grupos privilegiados e criminosos?

É, pai, teríamos tanto para conversar, para (re)conhecer um ao outro nessa precária impermanência que somos a nós mesmos. Veja só como uma única exposição, uma única casa para nos receber nos renderia horas e horas de conversas, todas instigadas por sua retórica que tem feito preciosa falta! Bem sei que a duração dessa nossa conversa não seria mais medida por relógios, uma vez que eles escapariam de nossas realidades intangíveis…

John Fletcher

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Montevideo

Posted in Variações Pessoais by cafebeatnik on janeiro 6, 2012

Nossos últimos dias em Montevideo encerram os relatos de viagem. Após chegar extremamente cansados da viagem de Buenos Aires/ Colonia del Sacramento, passamos nosso primeiro dia de retorno à capital uruguaia literalmente dormindo (com a única exceção de comer algo na beira mar e voltar para a proposta quarto de hotel).

Somente no segundo dia que as coisas mudaram um pouco de forma e pudemos revisitar alguns lugares mais apreciados (ou até mesmo concluir propostas não efetivadas durante a nossa primeira passagem): Teatro Solís (dessa vez com uma visitação guiada, a qual trouxe mais dimensão para entender a sua beleza e intensidade de espetáculos), um tempo maior para capturar fotos de praças, estátuas e cenas, o Museo do Carnaval (que não tive a oportunidade de visitar na primeira vez, e que se mostrou bem mais simples do que eu esperava) e uma refeição final no imperdível Mercado del Puerto (com direito a Medio y Medio e uma das melhores carnes de carneiro que já provei). E por falar em Mercado del Puerto, encontramos por lá um dos garotinhos de rua mais engraçados que se poderia encontrar (Lucas). É claro que ele precisava de dinheiro para a família, mas sua versatilidade/oratória/bom humor fizeram dele uma das grandes figuras desse término de viagem.

De qualquer forma, creio que é isso e não tenho mais nada a falar dessa viagem (talvez o básico e compartilhável já ganhou seu espaço aqui). Contudo, devo ressaltar, mais uma vez, a alegria e a dor de conhecer, compartilhar e perder tanto ao mesmo tempo. Acho que fazemos uma troca tão interessante ao conhecer pessoas diferentes, boas, situações, geografias, e guardá-las como memórias que aos poucos ganham opacidade… Acho que gostaria de falar acerca desses dias (das presenças e ausências), caso algum dia eu seja um velho…

“Pensamos que, se um tempo é infinito, creio eu, esse tempo infinito tem de abarcar todos os presentes e, em todos os presentes, por que não este presente? Se o tempo é infinito, em qualquer instante estamos no centro do tempo” (Jorge Luis Borges – A Imortalidade).

Será?

Buenos Aires

Posted in Variações Pessoais by cafebeatnik on janeiro 6, 2012

Buenos Aires é, sem dúvida, uma das cidades mais bonitas (talvez a mais) da América do Sul (isso dentro de um olhar mais histórico, da cidade como experiência arquitetônica). Se eu tivesse de escolher, teria grandes dúvidas entre ela e Santiago. Em todo caso, entre nossa chegada da capital do Chile e nossa volta para Montevideo, resolvemos passar mais um dia andando pela urbe argentina.

Sempre há algo que merece ser revisto (como foi o caso da linha A do metrô ou o bairro do Alto Palermo), mas também sempre há algo que pede uma visitação mais tranquila: neste ponto, os bairros de Puerto Madero (localização costeira com vários restaurantes e os prédios mais modernos da cidade) e San Telmo (opostamente, o bairro mais histórico, repleto de mercado de pulgas e ruelas de casas antigas).

O último dia mereceu um tom mais contemplativo, informal, de forma que a zona costeira em frente aos diques de Puerto Madero acabou virando a rota final (a qual, inclusive, ganhou a primeira contemplação do pôr-do-sol desde a Casa Pueblo). São nesses momentos que eu sempre fico me sentindo menor, menos amortizado pelo mecanicismo das tarefas rotineiras, a ponto de buscar explicações para as sensações que o deslocamento e a ausência de referências nos causam (uma estrutura de sentimento deliberadamente mais fluida, porém cheia de afetos).

Saímos de Buenos Aires, mais uma vez, durante a madrugada (entretanto, de navio há uma sensação de esplendor mais clara, da mesma forma como havia sido durante a chegada). Montevideo seria a etapa final (depois de ter sido a inicial) e tranquila dessa pequena aventura sul americana (l’avventura).

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Santiago e Viña del Mar

Posted in Variações Pessoais by cafebeatnik on janeiro 5, 2012

Dando continuidade ao relato chileno, porém de maneira mais enxuta, irei pontuar um pouco sobre essa cidade reveladora e tremendamente híbrida (falo isso, inicialmente, por conta do primeiro impacto que tive ao ver uma mistura de arquiteturas – neoclássica e moderna -, as quais conviviam de maneira bem característica).

A capital do Chile não é de uma beleza plástica impressionável à primeira vista (contrária a Buenos Aires), mas sua riqueza de possibilidades visuais e experimentais a tornaram na melhor descoberta dessa viagem. Bem, grafites ótimos estão espalhados pelos seus muros (principalmente no bairro mais boêmio da Bella Vista), ao passo que virar suas esquinas traz sempre uma experiência da surpresa (engraçado como percebi que, diferentemente de Santiago, Buenos Aires possui uma maior exuberância de pichações políticas, sem grandes grafites com apelos estéticos); museus de arte com boas propostas curatoriais (O Museu de Belas Artes me trouxe descobertas fascinantes, como foi o caso de uma individual de um artista chileno chamado Palolo Valdés, outra de uma chilena chamada María Angélica Echavarri e uma instalação do brasileiro Alex Fleming; planos de conservação corretíssimos e respeitosos; soluções muito espertas de divisões do espaço museológico); muitos restaurantes chineses, de mariscos, hindus e locais (comer o tal do caranguejo do pacífico, ainda que caro – visto o prato sair por uns 280 reais convertidos -, é uma experiência obrigatória, ainda mais se for acompanhada de um Castillero Del Diablo branco e suave, nas instalações do Mercado Central); um clima bossa nova (muitos cafés, bares, karaokês esquisitos) e gente jovem (aqui, pelo menos, tem pra todo lado).

Outros programas turísticos devem ser ressaltados: a casa do Pablo Neruda (feita para sua amante Matilde, umas das 03 do poeta espalhadas pelo Chile – e que, por sinal, teve a primeira visita guiada realmente interessante); o Museu de Arte Contemporânea (bem atrás do de Belas Artes); o zoológico (o qual fica num morro e transforma a visita em uma grande escalada que dá uma vista panorâmica da cidade – e eles possuem até um urso polar), o Castelo Hidalgo (outro prédio antigo construído em um morro gigantesco, o qual nos faz pensar até nas intempéries para a sua execução); o Palácio Gabriela Mistral; a Basílica (gigantesca e bem opressora); e o Pátio Bella Vista (um emaranhado de cafés e bares sofisticados, no bairro de mesmo nome, que é uma impressionante opção de bom gosto e tranquilidade).

Ainda no ano novo, fomos para Valparaiso e Viña Del Mar (a primeira é mais histórica e a segunda tem um apelo meio Ipanema do Pacífico), celebrar a passagem para 2012 (o fim?), tomar banho no mar gelado até demais e ir para uma festa chilena (que foi ótima e estranha, já que havia um tal de animador, que ficava falando e convidando todos para dançar e um Dj nada convencional – nunca vi um set list tão misturado e composto por 02 min, no máximo, de cada uma das músicas).

Caminhar por Viña foi muito legal, ainda mais apinhada de gente de todos os cantos. E somente na manhã seguinte que visitamos Valpo e pudemos ver os prédios históricos de origem inglesa (ah, mas para fazer tudo isso é necessário alugar um carro, caso contrário poderia virar um tiro no escuro – e o caminho de Santiago até as duas cidades é muito direto e fácil).

Enfim, ainda passamos por alguns bares, conhecemos chilenos (os quais são sempre muito simpáticos, na melhor caracterização do oposto que é o mal humorado e quase sempre rude argentino) e viramos amigos deles e sentimos de forma mais próxima a cultura local. Engraçado como alguns momentos, mesmo que curtinhos, ganham mais vividez e nitidez do que a nossas rotinas e parecem se encher de beleza.

Após uns 06/07 dias em Santiago, devo ressaltar que fiquei meio melancólico (acho que uma viagem boa deve nos deixar assim, não?). Tomamos nosso avião para Buenos Aires na manhã seguinte (já que fazer toda essa viagem de vinda de navio e onibus é cansativa, e ninguém merece se não for para conhecer pela primeira vez – ainda mais sabendo que, segundo cálculos, sai mais caro e menos confortável) e, rapidamente, trouxemos lembranças que valem a pena ser divididas.

Mendoza, Andes e Santiago

Posted in Variações Pessoais by cafebeatnik on janeiro 3, 2012

Bem, devo estar em meu vigésimo alguma coisa dia de viagem e já deixei de comentar muito por aqui. Como tinha dito no post anterior, antes de tirar férias dessa obrigação de relatar toda a viagem, estava em Mendoza e iria no dia seguinte fazer um passeio turístico pelas vinícolas e afins. Então vamos lá…

Na situação em questão, por muito pouco, nosso passeio não foi um fiasco completo. Com um valor de uns 150 pesos argentinos (uns 80 reais), provamos um pouco mais do que uns 4 dedos de vinhos (com direito a uma primeira vinícola – López – irritante, feia, com guias maçantes) e tivemos muita enrolação de uma guia na van a qual falava um inglês inintelingível. O bom, pelo menos, é que a segunda vinícola – Mevi – foi muito mais charmosa, com direito a um passeio “Sideways” pela plantaçãode uvas e conversas agradáveis com brasileiros distintos. O absurdo, entretanto, é que a parte mais válida não ficou por conta da Mevi, mas sim por uma visita a uma plantação de olivas (com direito a azeites, patês e uma ótima degustação) que deixou no chinelo as anteriores. Moral da história: só faça esse passeio se tiver dinheiro sobrando, caso contrário, vá para o Chile, que os vinhos são melhores.

Outro ponto. Eu já tinha falado que Mendoza é meio frustrante, já que não há beleza, mas somente algumas estradas com vinícolas interessantes nos seus arredores, contudo, a noite foi bem positiva. Há uma alameda com bares, tocadores de violão e cervejas ótimas (a Andes e a Quilmes são as recomendadas), de forma que trouxeram outro ar para a cidadezinha mais quente que eu já passei na vida.

Na manhã seguinte, por sinal, antes da nossa viagem pelos Andes, também conhecemos, na minha opinião, o melhor  museu de arte contemporânea que vi em todas as cidades da nossa viagem (e em Mendoza!). Uma individual de uma artista chamada Graciela Sacco foi impressionante, além do fato de haver uma curadoria extremamente atual e antenada com as propostas da street art nas outras salas.

A viagem pelos Andes, por outro lado, desde o começo se mostrou que é uma das experiências que qualquer ser humano deve ter na vida. Pegamos outro ônibus da CATA (a mesma empresa que nos levou de Buenos Aires até Mendoza), e empreendemos nossa jornada incrivelmente bela e assustadora. É muito bacana viajar de ônibus por estradas cheias de desfiladeiros, túneis sem fim, claustrofobia) e uma série de pequenos santuários espalhados pelas estradas (o que não dava para entender se eram túmulos ou representações culturais da religiosidade local). A ponto da alfândega que é mais lento e toma um pouco de tempo para fazer algo que poderia ser mais simples (como eu já tinha visto nas alfândegas de Montevideo e Buenos Aires). Após um dia inteiro de viagem pelos Andes, chegamos em uma cidadezinha prévia a Santiago chamada Los Andes (dã!) e em seguida foi a vez da capital chilena.

Entretanto, um aviso: a rodoviária de Santiago, realmente, dá uma péssima primeira impressão, e, ao meu ver, pareceu muito mais inferior à rodoviária até de Belém (se compararmos que uma é uma capital de um país e a outra de uma cidade menos central do Brasil, temos uma idéia do disparate).

Felizmente, como nem tudo é espinho, chegamos a uma cidade realmente incrível (Santiago, óbvio) que vai ser mais detalhada em um post mais à frente. Escrevi muito por hoje, não?

Posted in Variações Pessoais by cafebeatnik on dezembro 30, 2011

Cansei de comentar a viagem.

 

It’s all over now, babe blue…

Buenos Aires e Mendoza

Posted in Variações Pessoais by cafebeatnik on dezembro 28, 2011

Vamos continuar com o diário de viagem em mais um dia por Buenos Aires, com muita caminhada e ótimas descobertas. Já que esse era o nosso último na capital argentina, nada mais justo do que cumprir tabela com os locais obrigatórios para interessados pela charmosa cidade.

O primeiro passo foi conhecer a Plaza Independencia, local onde se encontra o Congresso e alguns prédios de arquitetura bem interessantes. Por sinal, tal Plaza era bem perto do hotel no qual nos hospedamos – Hotel Mondial, o qual ficava na Av. de Mayo e nos trouxe um dos melhores argentinos que conhecemos (Fabián, recepcionista engraçado e parecido com o Jim Jarmusch). Mas retomando o assunto Plaza Independencia, a coisa foi básica, sem condições de dar muitos detalhes por aqui, já que nada se compara à experiência visual e presencial.

Logo após, fizemos um de nossos últimos passeios pelo metrô (sem dúvida, meu atrativo predileto de Buenos Aires), visitamos o Jardim Botânico (local de estátuas muito fotografáveis), tomamos um café no Starbucks (com direito a um atendimento desconcertante made in Bel Ami) e finalmente visitamos a Basílica-Casa Rosada-Plaza de Mayo (local onde estava rolando, mais concentradamente, uma série de eventos memorialistas quanto aos conflitos e à crise econômica de 10 anos atrás). Bem, muito emocionante (só devo ratificar que a Basílica de Montevideo é mais deslumbrante, mesmo sendo menor).

Retornamos, então, ao hotel, o qual, sem dúvida, não se compara ao ótimo e superior Sur Hotel, de Montevideo, para pegar nossas bagagens, partir para a Estação Retiro e lá pegar o ônibus da companhia CATA, conforme indicado por sites de mochileiros (optamos pela última viagem, de 22:30) até Mendoza. E foi na mesma Estação Retiro que nossa quarta integrante finalmente se juntou ao  grupo.

Olha que a viagem de ônibus foi ok, talvez porque estávamos cansados demais (dormimos boa parte do longo trajeto, que tomou a noite inteira e metade do dia seguinte). E como tal ida a Mendoza é longa (bora combinar), com, aproximadamente, 14 horas de duração, chegamos ao hotel mortos, prontos para dormir mais um bocado. E eu fiquei assim, molusco o resto do dia (e não quis sair, ainda mais com o calor seco desgraçado que faz nesse lugar), com direito só a uma refeição fantástica em um restaurante em frente ao nosso hotel (Al Sol Mendoza).

Só pra concluir: devo ainda ressaltar que a cidade é bem sem graça, quase feia. Se não fosse pela vista ótima dos Andes, teria não entendido a sua procura turística. Em todo caso, amanhã é dia de visitar os vinhedos, e as coisas tendem a ficar mais claras.

Buenos Aires – dia 08 e 09

Posted in Variações Pessoais by cafebeatnik on dezembro 26, 2011

Vamos lá com mais comentários sobre Buenos Aires. Outro dia pela cidade e continuamos nossa experiência pelos velhos metrôs, com seus estilos clássicos, murais de azulejos e vários pickpockets (sim, essa é uma péssima notícia daqui). Eu quase fui furtado, mas percebi que algo parecia errado e nada aconteceu. O caso é que desde então eu aprendi a andar com a mochila virada pra frente e os olhos mais atentos.

De qualquer forma, em nosso oitavo dia de viagem, visitamos o Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (MALBA) e pudemos ter uma grande jornada artística. Além do lugar ser extremamente moderno e badalado, em seu acervo pudemos apreciar obras de Tarsila do Amaral, Frida Kahlo, Diego Rivera, Botero, Antônio Dias, Lígia Clarck, Hélio Oiticica, Beatriz Milhazes, Claudio Tozzi, Portinari, Antonio Berni, Annemarie Heinrich, entre outros. As salas são bem arrumadas, com ótimos textos de apresentação, o que faz com que o passeio seja ainda mais revelador. Acho que essa é a programação fundamental da capital argentina e vale mais do que qualquer outra coisa.

É interessante, também, ver um ícone moderno, como é o caso da tela Abaporu, fora de um acervo brasileiro – e tratada com um respeito que talvez nem nós daríamos.

Nosso passeio teve continuidade pelos parques do Alto Palermo, com suas fontes, estátuas, jardins. Muito bonito e agradável (porém, na maioria das vezes, se tornava uma atividade quase ritual, para cumprir tabela, com um certo ar de esterilidade pairando – como todo ato turístico acaba sendo). Pelo menos, já conseguimos andar por boa parte da cidade que interessa (e andar mesmo, sem direito a querer ficar cansado).

Ainda decidimos voltar para o hotel e nos arrumar para a derradeira noite de natal, o que, após feito, fez com que preferíssemos jantar em um restaurante próximo chamado El Cortijo. O preço do vinho, por sinal, é incrivelmente barato, e isso faz até com que nos desliguemos do que poderia ter sido feito de melhor. Infelizmente, a balada em Buenos Aires começa muito tarde (por volta de 2h da manhã é quando abrem as casas noturnas), de forma que, sem paciência e cansados, resolvemos voltar para dormir. Frustrante, não? Também acho.

Nosso dia natalino também caminhou da mesma forma, tranquilo, com poucas pessoas na rua, serviços e estabelecimentos fechados, problemas com caixas eletrônicos. Nada de relevante aconteceu, a não ser descobrir os preços absurdos de ônibus para Mendoza e caminhar pela deserta e amedrontante zona do Retiro (o que equivale à estação central de ônibus e a zona portuária).

Voltei ao hotel relativamente cedo, mais uma vez, cansado de cafés, sem paciência e achando toda essa viagem uma grande tolice. Espero que eu mude de idéia amanhã. Não sou uma pessoa que gosta de natal, sente falta da família, ou de família, nem nada, mas a companhia de certos amigos em casa, um bom filme e despretensão começaram a fazer muita falta.

Buenos Aires – dia 06 e 07

Posted in Variações Pessoais by cafebeatnik on dezembro 24, 2011

Buenos Aires é uma cidade cheia de contradições. Se por um lado é muito bonita, com uma arquitetura clássica e de encher os olhos, por outro traz experiências não tão agradáveis assim: muitos argentinos são grosseiros, agem de má vontade, ao passo que determinados serviços não tem uma funcionalidade como os de Montevideo.

Em todo caso, a experiência é marcante. Nosso primeiro e oficial dia em Buenos Aires teve alguns causos engraçados e igualmente recompensadores. Após um passeio pelas calles charmosas do bairro de Recoleta, visitamos alguns museus próximos, como foi o caso do Palacio Nacional de las Artes (o qual trazia uma fraca Centésima Edição do Salão Nacional de Artes Visuales , com subdivisões nas categorias de cerâmica, gravura e arte textil – muito fraca mesmo, sem criatividade; dentro, ritualmente, do padrão que se espera da arte contemporânea, com obras até feias de se ver – e as poucas que se salvavam ficaram registradas na minha máquina fotográfica) e o Museo Nacional de B elas Artes, MNBA (o qual, para nossa surpresa, trazia uma impressionante coleção de obras de Goya, Rodin, Degas, Bouguereau, Renoir, Cezanne, Toulouse Lautrec, entre outros – algo emocionante). Uma pena que no MNBA não se podia tirar fotos (claro, já que as pinturam não podem sofrer tal exposição), mas vários estrangeiros simpáticos foram companhias agradabilíssimas durante a entrada do local.

Como a hora já ia alta, ao término da visitação optamos por não seguir adiante no passeio em museus para visitar o Cementerio de La Recoleta (um cemitério incrível, onde cada mausoléo dá uma aula de história da arte e antropolgogia). Por sinal, foi em La REcoleta que fizemos, ao lado de um grupo de alemães, uma verdadeira caça ao local onde Eva Peron estava sepultada (e como o local é enorme, mais parecendo um labirinto, tal busca nos custou algum tempo) – e, infelizmente, só os amigos verão os registros mórbidos e turísticos.

Após visitar mais feiras, descobrir que ônibus aqui só se paga com moeda (e se tiver somente cédula, o motorista irá lhe convidar a sair do transporte de forma rude), tivemos nossa primeira refeição argentina clássica (Parrilla, um prato feito somente de carnes, muitas delas horrorosas e nada interessantes para o meu paladar). Depois de ter gostado do Chivito uruguaio, precisávamos descobrir algo não muito agradável (sorte que tínhamos muito Pinot, além da sorte de dar quase todo nosso prato para um garotinho carente chamado Augustín).

Já o segundo dia oficial foi mais surpreendente. Depois de descobrir a andar de metrô por aqui (as estações são lindas, clássicas, velhas, com metrôs grafitados, lotados, numa confusão só) e visitar o Museu de Ciencias Naturales, finalmente conhecemos o bairro de Palermo Soho, lotado de cafés, gente “muderna” e lojinhas bacanas (pelo menos o vinho tá bem barato, pois a garrafa de Pinot custa quase a metade do preço se comparada ao Brasil).

Hoje também foi um dia relativamente mais frio (algo em torno de 12 graus), bem diferente do sol uruguaio que me deixou completamente queimado.  E como amanhã é vespera de Natal, Palermo deve ser a melhor pedida da noite (o que, por si só, já traz um clima bem paulistano). Vamos ver.

Colonia Del Sacramento e Buenos Aires

Posted in Variações Pessoais by cafebeatnik on dezembro 23, 2011

E a viagem continua. Após sair de Montevideo, a rota utilizada por nós fez o uso de um ônibus até a cidadezinha de Colonia Del Sacramento, duas horas e meia de distância da capital. Nada complicado, uma vez que basta pegar algum da companhia COT, por um preço módico na Estação Tres Cruces (e a cada duas horas se consegue tal transporte).

Colonia Del Sacramento é uma descoberta. Cidade tombada como patrimônio histórico mundial, ela tem um centro histórico interessantíssimo, com uma arquitetura em perfeito estado de conservação. Suas ruas são arborizadas, floridas, cheias de cafés. Uma maravilha. Um dia é suficiente para conhecê-la, mas na volta de nossa viagem decidimos passar mais um tempo nessa fantástica cidade. Quando eu voltar, postarei mais comentários (ainda mais sabendo que o aluguel de um desses carrinhos de transporte para turistas é muito barato e indispensável para se ter uma maior mobilidade – o que nos ajudou muito para conhecer todos os cantos).

Segundo passo: atravessar o Rio da Prata de Buquebus (meio econômico, válido como experiência diversa), para chegar em Buenos Aires. Só devo mencionar que uma garrafa de água no barco é extremamente cara (portanto, o melhor é ir já com tal provisão). Fora isso, nenhum problema em absoluto. A viagem dura três horas, e é uma ótima forma de conciliar alternativas bacanas de viajar pela América do Sul e fugir dos aeroportos.

A chegada em Buenos Aires é realmente majestosa. Logo de cara você se dá conta de ter chegado em uma metrópole moderna, a qual alia uma arquitetura clássica com construções modernas. E não tem pra ninguém. Talvez essa seja a cidade mais bonita da América do Sul (ou talvez seja Santiago, como muitos dizem), já que caminhar por suas ruas é uma atração inesquecível. Uma pena que pegamos um taxista mau caráter logo no porto que cobrou o olho da cara para nos levar ao nosso hotel (somente quando chegamos é que descobrimos que o hotel ficava muito perto).

Senti logo de cara um clima até meio paulistano, cosmopolita, com cara de balada. Porém, amanhã falo mais do meu sexto dia aqui com novas impressões sobre essa cidade (que sem dúvida é linda e cheia de atrações).

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